Água e luz em xeque

Coluna na Folha de Valinhos, publicada em 22/02/2014

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A estiagem no verão que acaba de terminar no Brasil trouxe à tona fragilidades em dois setores fundamentais para o desenvolvimento e para a vida cotidiana da sociedade: distribuição de água e geração de energia elétrica. A crise rascunhada pela falta de chuvas já acendeu o sinal amarelo entre os especialistas federais em eletricidade e desacomodou as lideranças estaduais para a execução de obras emergenciais na captação de recursos hídricos. Afinal de contas, a chegada do outono abre a temporada de tradicional estiagem – e, diferentemente dos últimos anos, não choveu o esperado para estufar os reservatórios de distribuição de água e movimentação das turbinas em usinas hidrelétricas. Para piorar o cenário já pouco favorável, o país sediará a Copa do Mundo em junho e julho – meses em que a seca se agrava. A possibilidade de desabastecimento de água ou de falta de luz chega a arrepiar as lideranças políticas, que acabam por tentar acalmar os ânimos por meio de anúncios paliativos e pouco esclarecedores. O temor dos dirigentes fica ainda maior quando lembramos que estamos em ano eleitoral. Nesse período, qualquer aparente alarme de falência nesses setores estruturais pode ser fatal diante das urnas.

A falta de chuvas tirou o véu em relação à vulnerabilidade da nossa matriz energética, alicerçada no modelo hídrico e propagada pelo governo federal como grande força da nação. Vale recordar aqui os discursos inflamados de anos atrás sobreo reforço dos sistemas de transmissão e, principalmente, a segurança nas fontes de geração de energia. O governo Dilma chegou até a anunciar uma redução das tarifas para o consumidor final. Agora, com menos água, os preços voltarão a subir para poder manter as usinas termoelétricas em operação. Uma clara sinalização de que os passos dados na gestão do setor não têm sido acompanhados de um planejamento adequado.

Em termos de produção de eletricidade, o Brasil é país mais renovável do mundo, pois a geração de energia efetiva provém de cerca de 90% de fontes renováveis. Dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) apontam que o Brasil apresenta uma matriz elétrica com 123 GW instalados, composta por 69% de hidrelétricas, 10% de Gás Natural, 10% de Biomassa, 6% de derivados do Petróleo, 2% de Nuclear, 2% de carvão e 2% de eólicas.  O cenário futuro parece consolador. Ainda segundo a ABEEólica, de 2009 a 2012,  foram contratados 7,1 GW em energia eólica. Com o fim das obras de instalação, o Brasil deve encerrar o ano de 2017 com 8,8 GW de capacidade instalada de energia produzida a partir do vento. Se confirmada esse previsão, a matriz eólica passará a ter participação de 5,5% do total de energia produzida no país. Ainda é pouco para garantir sustentabilidade a uma matriz que depende tanto de energia hidrelétrica. Além disso, o modelo de leilão para exploração dessas “novas” fontes renováveis e a composição tarifária do setor são encarados como grandes entraves pelos investidores para a diversificação da matriz brasileira.

Quando se fala em distribuição de água, a situação parece ainda mais alarmante. O governo de São Paulo anunciou esta semana duas obras que prometem garantir o abastecimento: bombeamento da reserva técnica do sistema Cantareira (a “raspa do tacho” da represa) e o desvio de águas do rio Paraíba do Sul, que atende Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essa última intervenção já causou chiadeira na equipe do governador Sérgio Cabral.

A questão de fundo, porém, não é a disputa política pelo recurso hídrico. Fala-se dessas obras emergenciais com uma espantosa naturalidade. Ao que parece, as lideranças políticas de São Paulo não se atentaram para o fato de que só no próximo verão as chuvas virão num volume que encha os reservatórios do estado novamente. A parcimônia do discurso do governador Alckmin não ajuda em nada a esclarecer o cidadão sobre a real situação dos sistemas.

Em Valinhos, a gestão do DAEV deu conta de contornar a fase crítica da estiagem de verão. O alerta para o rodízio de racionamento permanece. E precisa mesmo ser assim, pois a chuva não deve vir de um modo tão intenso até o final do ano. Melhor ser honesto com a população e dizer que não há água em abundância para todos do que ficar, como Dilma e Alckmin, empolando o discurso para evitar o desgaste político em ano eleitoral.

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