Luto por Santiago Andrade

Coluna na Folha de Valinhos, publicada em 15/02/2014
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Queria inaugurar esse espaço de discussão com você, querido leitor valinhense, de um modo menos incômodo. Mas, infelizmente, a semana foi marcada pela morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da TV Bandeirantes do Rio de Janeiro, depois de ter sido atingido por um rojão durante uma manifestação no centro da capital fluminense. Um pai de família, com 49 anos, no auge da sua carreira, teve sua vida ceifada de modo covarde durante o exercício da sua profissão. Como reação, no meio da imprensa, não faltaram editoriais e artigos de opinião sobre esse lamentável incidente. Santiago é a primeira vítima fatal desse ciclo de protestos iniciado em junho de 2013. E sua morte amplifica o cenário de dificuldades que precisam ser urgentemente enfrentadas para evitar um colapso institucional no Brasil – o que seria grave em qualquer época, e mais ainda num ano de eleições e às vésperas do mundial de futebol.
Santiago Andrade é vítima de um grupo que se diz engajado, mas que perde a razão ao ir para a rua preparado para o confronto. Quem leva rojão para um protesto é, no mínimo, imaturo politicamente. Quem pensa a restauração do Estado com o uso da violência não entende o valor da democracia. Parece mais uma anarquia pós-moderna. Foi essa gente que, a despeito da intenção, feriu de morte o jornalista da Band. Uma militância oportunista, que se associa às legítimas e necessárias manifestações pela transformação social. O Estado republicano não pode aceitar a infiltração de grupos violentos aos protestos.
Santiago Andrade é vítima de uma política de segurança pública desarticulada, que há muito tempo perdeu sua dimensão preventiva e que se vê refém da baixa remuneração de seus agentes – o que abre brechas insondáveis para a corrupção das forças policiais – e acuada pela opinião pública, que já se cansou de ver posições extremadas dos agentes, tanto na omissão quanto no abuso. A missão de servir e proteger a comunidade, prerrogativa das forças públicas de segurança, está fragilizada pelo contexto atual: a situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão; os assassinatos em série ainda não solucionados em Campinas; o caso do suspeito de roubo que foi amarrado nu em um poste por moradores revoltados em um bairro do Rio de Janeiro – sinais que precisam levar a uma rápida revisão dos métodos e estratégias das forças policiais.
Santiago Andrade ainda é vítima de uma categoria profissional que se revoltou – com razão – pela sua morte, mas que há muito tempo está praticamente inerte em relação ao seu universo de trabalho. Arroxado por políticas salariais esdrúxulas, sufocado pelos egos inflados de muitos de seus pares, acuado pela transformação das mídias, o universo dos jornalistas carece de mobilização. Faltam posturas mais incisivas em relação a melhores condições de trabalho, remuneração digna e regulamentação eficiente da profissão. Não se viu uma iniciativa patronal de proteção aos profissionais em situações de conflito e as entidades que dizem representar a categoria não ofereceram nenhum suporte jurídico aos jornalistas.
Por fim, nos resta rezar por Santiago, seus familiares, colegas e, do mesmo modo, pela retomada da sanidade em meio ao iminente agravamento da crise social. Além disso, estamos em ano eleitoral – mais uma oportunidade de mostrarmos com o voto que uma sociedade diferente, mais democrática, e menos violenta, é possível no Brasil.

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