O carisma do Papa Francisco

Papa Francisco

 

O povo brasileiro não se cansa de se encantar com o papa Francisco, em visita ao país nesta semana para presidir a Jornada Mundial da Juventude. Desde segunda-feira o pontífice tem revelado, em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra, um impressionante carisma e uma capacidade ímpar de cativar a partir do nada. “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho de mais precioso eu vos dou: Jesus Cristo”. Recordando a palavra de Pedro diante do aleijado na porta do Templo de Jerusalém, em passagem contida no livro dos Atos dos Apóstolos, Francisco apresenta diante dos corações dos brasileiros uma dupla intenção.

A primeira, mais clara, própria dos papas, é a missionária. O papa não visita um povo em nome próprio, mas revela ser enviado por aquele que o chamou para o ministério na Igreja. A segunda é típica de Francisco. Seu modo de proceder desde a eleição para o bispado de Roma demonstra um ardente desejo de liderar uma Igreja que não ostente ouro e prata, que não se glorie dos seus triunfalismos anacrônicos e de sua pretensa primazia na aventura de salvar as almas. Francisco revela na sua missão como pontífice o desejo de anunciar a mensagem cristã a partir de uma outra dinâmica, descolada de qualquer vício de poder temporal ou de auto-congratulação.

A vontade de se fazer próximo dos brasileiros ficou evidente já no primeiro deslocamento entre o aeroporto do Rio e a Catedral Metropolitana. Francisco recusou a pompa do carro oficial e se colocou no banco de trás de um modelo mais simples, que até destoava do resto da comitiva. Com os vidros do carro sempre abertos, o papa despejou sorrisos do começo ao fim do trajeto, inclusive quando, por uma falha na condução do comboio, se viu espremido entre ônibus e uma multidão de fiéis ávidos por uma bênção, um toque, uma foto. Um simbólico tapa na cara da classe política brasileira, eleita em tese para servir. A jornalista Vera Magalhães perguntava, na terça-feira, em sua coluna na Folha de São Paulo: “quais das autoridades que foram atrás de fotos e bênçãos do papa franciscano poderiam se dar ao luxo de passear pela avenida Rio Branco com os vidros do carro (não blindado) abertos?”
Antes de apresentar qualquer arroubo de êxtase religioso, o discurso de Francisco na sua chegada ao Rio de Janeiro buscou integrar o papa ao cotidiano dos brasileiros que o acolhiam. O líder católico pediu licença para “bater delicadamente na porta dos corações” de cada habitante do país. Além disso, o papa exaltou a diversidade religiosa do povo brasileiro como um sinal de vida, e não como uma ameaça de excomunhão – conforme desejariam alguns adeptos de uma ortodoxia mais míope do que reta.

A delicadeza de Francisco anda de mãos dadas com a sua vitalidade. O papa fez questão, sempre que possível, de estar perto das pessoas. Francisco é gente, afinal de contas – uma postura que enche de receio os seguranças e provoca a ira de clérigos mais empolados e um tanto avessos às grandes manifestações populares. Sua disposição, colocada à prova na cansativa jornada até Aparecida, por exemplo, é mais um sinal de unção e de entusiasmo para a sequência de seus propósitos diante do governo da Sé Apostólica.

Outro ponto que reforça o carisma do papa é o seu modo especial de expressar a fé, a espiritualidade. Diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, o gesto do pontífice foi exatamente igual ao de todo simples peregrino que se dirige ao Santuário Nacional para rezar: Francisco estendeu a mão, tocou o vidro que protege a escultura e fez sobre si o sinal da cruz. Um ato de piedade popular, que revela a simplicidade do coração desse homem que carrega nos ombros, desde março de 2013 o desafio de tornar mais simples e humilde a instituição bimilenar que agora pastoreia

A homilia da missa em Aparecida é um capítulo à parte no desejo que Francisco tem de reformar os costumes e as práticas da Igreja – como fez o santo que inspirou o nome do pontífice no século XIII. Um sermão inclusivista, aglutinador, capaz de levar a maravilha do encontro com Cristo a todo ser humano que, de bom coração, se lança na vida por meio do desafio de partilhar. O pontífice resumiu seu recado aos fiéis com a recomendação de três “simples posturas”: conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria. Recado de um cristão, homem de fé, a todo homem e mulher de boa vontade, independente de sua crença religiosa ou de sua compreensão diante dos fatos do mundo.

A postura de Francisco quer trazer de forma mais explícita à realidade o desejo de um diálogo aberto e misericordioso entre o mundo e a Igreja – desejo expresso com primazia pelo Concílio Vaticano II, celebrado entre os anos de 1962 e 1965. Um catolicismo decididamente renovado, capaz de oferecer uma resposta de fé aos problemas que o mundo apresenta e de acolher de forma amorosa a adesão humana, cheia de limites, aos propósitos de Deus.

Francisco quebra paradigmas também ao desejar ardentemente estar perto dos que sofrem e são oprimidos. As visitas ao hospital São Francisco de Assis e à comunidade de Varginha, no Rio de Janeiro, são um recado profético do papa aos pastores e cristãos de todo o mundo: as dores de Jesus Cristo se renovam a cada dia nas dores dos sofredores, dos excluídos, dos marginalizados. Um olhar de cristão não pode se desviar dessa realidade, mostra o papa. Mãos cristãs não podem deixar de ser estendidas a esses irmãos, clama o pontífice. “Tudo que se partilha acaba multiplicado”, lembrava ele diante dos moradores da comunidade.

Francisco, em suma, encantou o Brasil. Mostrou que é possível liderar com autoridade sem ostentação; revelou que a Igreja de hoje precisa de muito desapego simbólico e material; contagiou a juventude com a sua vitalidade; mostrou ser um homem de fé, disposto a se deixar consumir em favor de sua missão.O papa atualiza com primor a frase que o santo da Idade Média afirmava ter recebido de Jesus Cristo crucificado: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja”. Que assim seja, santidade.

3 Comentários

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  • Simples, claro e, como sempre, lúcido. Parabéns!

  • Querido Felipe, parabéns! Lindo, lindo,lindo seu texto.

  • Excelente texto. Traduz bem, em palavras, aquilo que nós sentimos diante desse nova pessoa representante da Igreja. Que venha a luz de Deus sobre os povos! Deus abençoe você!

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