Os R$ 0,20 e a democracia

Editorial da Folha de Valinhos – 22 de junho de 2013.

Protestos na Câmara Municipal de Valinhos, na terça-feira (18)

Protestos na Câmara Municipal de Valinhos, na terça-feira (18)

As manifestações que tomaram as ruas de 11 capitais e tantas outras cidades, inclusive Valinhos, nesta semana ainda ecoam nos corações e nas mentes de muitosbrasileiros como um sinal candente de mobilização, revolta, incômodo com a situação política, econômica e social do Brasil. É fato que a selvageria de alguns manifestantes, a falta de tato de setores da polícia e as agressões a profissionais de imprensa geraram diversos focos de tensão – ruas de São Paulo, Rio, Brasília e Campinas viraram verdadeiros campos de guerra.Valinhos também presenciou atos violentos nas manifestações de terça-feira. Todavia, o pacifismo da imensa maioria dos que vão às ruas é algo digno de um ambiente republicano.

A onda de protestos já surtiu seus primeiros efeitos. Numa impressionante reação em cadeia, governadores e prefeitos país afora revogaram os aumentos de passagens anunciados ao longo do mês de junho. Em Valinhos, como frisou o próprio prefeito Clayton Machado, o “clamor da sociedade” foi decisivo para impulsionar a administração municipal a realizar o esforço orçamentário que vai permitir a volta do preço de R$ 3,00 na cidade.

A série de manifestações teve uma gênese clara – a questão do aumento das passagens de ônibus – e tomou proporções ainda maiores por conta de algum fenômeno que ainda espanta analistas, observadores e articulistas. Os R$ 0,20 que motivaram os protestos, ainda na semana retrasada, foram inflacionados pela multiplicidade de tantas outras “causas nobres” que apareceram no meio do caminho. O sociólogo Demétrio Magnoli dizia que as manifestações ainda estão em uma esfera “pré-política”, sem a definição de uma agenda clara.

Apesar de não se conseguir apontar o que deu ainda maisânimo aos movimentos – saúde, os custos com a Copa do Mundo, falcatruas nas esferas de governo, desvios em licitações, a demora em punir os culpados do mensalão – existe clareza em um ponto, como bem sintetizava ainda na segunda-feira o jornalista Sidney Garambone: “No âmago das manifestações, a crise da representatividade. Mas os políticos se recusam a refletir”. Essa tese tem consistência. Vale a pena pensar sobre ela.

A democracia brasileira é recente. Tem pouco menos de 30 anos. Os participantes dos movimentos dessa semana, em sua maioria, têm ainda menos. O sistema político do país viveu, desde 1989, um gradativo processo de descolamento das bases da sociedade. Esse fenômeno seintensificou ainda mais depois de 2002, com a eleição de Lula. Inegavelmente, a atuação de entidades representativas da sociedade civil (movimentos estudantis, sindicatos, associações de classe) foi apagada – ou politicamente aparelhada – com a ascensão de um ex-sindicalista ao comando do Executivo. A ideia do “povo no poder” resfriou na burocracia governamental aefervescência da discussão política que se dava nos chãos de fábrica, nas assembleias estudantis e nas reuniões sindicais. Somados a esse esvaziamento dos movimentos sociais estão a intensificação do fisiologismo político, a legitimação da barganha entre cargos e apoios parlamentares e o sufocamento – mais autônomo do que provocado – da oposição.

Essa realidade levou ao descrédito da política partidária. Os partidos viraram cabides, vitrines eleitorais. As siglaspartidárias passaram de celeiros de políticas públicas a suportes para políticos profissionais. Prova disso é a repulsa de muitos manifestantes à vinculação dos atos apartidos. Outra comprovação vem daqui de Valinhos: os manifestantes não concordaram em abrir diálogo com os vereadores na terça-feira. As ruas mostram que, na consciência popular que se aflora, ser apartidário parece ser o modo mais seguro e higiênico de se fazer política.

Depois de alguns atos mais acirrados de violência nesta quinta-feira, surgiu na pauta a discussão sobre o papel dos partidos políticos nesses movimentos. Setores mais à esquerda ainda não conseguiram digerir essa tal crise de representatividade. A revolta contra os partidos é sinal de descrença, de exaustão, e está longe de representar uma maquinação perversa contra a democracia. Um detalhe pontual: a revolta vem ganhando corpo, mas ainda não tem cabeça. As vozes que gritam por tudo podem acabar gritando por nada. A crise de representatividade que motivara as passeatas aflige o próprio movimento, em certa medida.

Existe, todavia, um outro dado especialmente importante para se iluminar a discussão sobre o rumo dos protestos: que História se quer construir com esses atos? A juventude que foi às ruas, motivada na velocidade de um clique pelas redes sociais, esbanja vitalidade, mas não mostrou ainda se tem a noção exata de que o manifesto de hoje é garantido graças a uma resistência que começara ainda nos anos 1960. A maturidade desse movimento espetacular pela intensidade inicial vai ser medida pela sua capacidade de mobilização e de sustentação ao longo do tempo.

Nessa esteira, falar em impeachment de quem quer que seja, no calor da hora, parece algo descabido – todos os que hoje estão no comando do Executivo e do Legislativo foram eleitos democraticamente. A demanda maior e mais clamorosa de ser por zelo com a coisa pública, transparência nos gastos, austeridade nos investimentos, honestidade na gestão e uma profunda reforma no sistema de representação popular.

Em suma, as ruas deixaram essa lição: nada mais sublime a comemorar do que a consolidação de um regime sem autoritarismos, sem violências e sem tiranias. A democracia não admite vozes embargadas.

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