A virtude no “Mênon”, de Platão

À primeira impressão, Mênon pode ser definido como um tratado sobre a virtude. O texto sugere uma alentadora questão inicial sobre a capacidade de se ensinar alguém a ser virtuoso. Esta indagação parece desdobrar-se num estudo minucioso sobre as origens da virtude e o potencial transformador da mesma no ser humano. Entretanto, a dimensão dialogal do Sócrates platônico provoca uma oscilação pendular entre estímulo pela pesquisa do tema e inquietação pela demora no avanço do raciocínio. Estilística à parte, o texto torna-se lapidar por trazer à tona questionamentos que raramente seriam colocados no cotidiano. E Mênon cumpre este papel usando como substrato a maiêutica de Sócrates.

O recurso socrático dá as caras logo no início do texto, quando da alteração proposta por Sócrates para os rumos do diálogo. Interrogado inicialmente por Mênon sobre a possibilidade de se ensinar a virtude, o filósofo pondera que é necessário primeiro descobrir o que é a virtude em si para, assim, determinar se – e como – ela pode ser transmitida. Neste ponto, o embate entre os dois interlocutores ganha estofo e passa a se dar, da parte de Mênon, com a busca por uma definição exata de virtude, enquanto Sócrates, por sua vez, articula a refutação das tentativas de Mênon, buscando mostrar as fragilidades conceituais das respostas oferecidas.

Na quarta tentativa de definir a virtude, Mênon afirma que “a virtude é desejar as coisas belas e ser capaz de consegui-las” (77b). Para criticar esta resposta, Sócrates se esquiva da relação entre definendum e definens e passa a uma discussão ética, na qual postula que todos almejam as coisas belas e que, assim, não haveria pessoas não-virtuosas. As tais “coisas belas” – justiça e prudência, por exemplo –, Sócrates faz Mênon enxergá-las como partes da virtude. “Então, resulta, a partir do que admites, que fazer o que quer que se faça com uma parte da virtude, é isso a virtude”. Depois dessa sequência de refutações, Mênon é colocado em aporia – reconhecimento de total ignorância sobre o tema – por Sócrates.

A partir deste vácuo de conhecimento sobre a virtude, Sócrates inicia uma articulação no sentido de demonstrar a teoria da reminiscência, na qual a aquisição do conhecimento se dá por meio de rememoração e reconstrução de referenciais já apreendidos. A demonstração dessa teoria se dá com o diálogo entre Sócrates e um escravo de Mênon: num primeiro momento, pela condução do escravo ao estado de aporia; depois, por meio de um interrogatório – em que a maiêutica entra de novo em cena. O serviçal – que só tinha a língua grega como referencial de intelecção – é estimulado por Sócrates a construir uma teoria geométrica por meio de noções cotidianas e do resgate de conceitos já processados em algum momento anterior. Ao retomar a conversa com Mênon, Sócrates recorda que a ciência é atributo da alma e que, tanto no escravo quanto em qualquer outra pessoa, “tanto no tempo em que ele for quanto durante o tempo em que não for um ser humano, deve haver nele opiniões verdadeiras que, sendo despertadas pelo questionamento, se tornam ciências” (86a).

O debate sobre a ciência na alma faz Mênon retomar a pergunta que iniciou o diálogo: “se é como coisa que se ensina que é preciso tratá-la, ou como coisa que advém por natureza, ou como coisa que advém de que maneira afinal, quando advém aos homens, a virtude” (86d). Entre os indícios que são verificados para caracterizar a virtude, está a depuração de que, se a ciência é virtude, há mestres que a ensinam. E quem seriam então esses preceptores da virtude? Platão coloca na boca de Ânito uma feroz crítica aos sofistas e ao método mercenário de cultivo da filosofia. O novo interlocutor de Sócrates responde que os mestres da ciência ‘virtude’ são os cidadãos que a praticam.  Sócrates refuta a afirmação, mostrando que os descendentes de grandes cidadãos não repetiram os feitos virtuosos de seus pais.

Dessa análise de casos particulares, Sócrates passa a pensar a fundo sobre as origens da virtude. E infere que “… a opinião verdadeira, em relação à correção da ação, não é nada inferior à compreensão. E isso é o que agora negligenciamos sobre que tipo de coisa é a virtude”.  A diferença estaria, segundo Sócrates, no fato de que a opinião é menos duradoura que a compreensão. Além disso, a ciência encadeia novas descobertas, novas investigações. A opinião estaria restrita, nesse aspecto.

O diálogo parte, então, para uma síntese em que os interlocutores parecem chegar num consenso: a virtude não é natural do ser humano. A dúvida sobre o caráter cientifico ou especulativo da virtude permanece até o ponto em que os debatedores concluem que não há mestres de virtude. Portanto, esta não é ciência e está no campo da opinião.

O leitor que termina a análise de Mênon já escolado com a leitura da República não mais se espanta com as últimas frases socráticas sobre a virtude. Sócrates postula que é impossível determinar se a virtude é algo que se ensina antes de saber o que ela é em si. É o mesmo discurso de quando é questionado sobre o bem da justiça no diálogo da República. Sem conclusão, mas com uma valiosa e profunda abertura para a análise dos temas.

1 comentário

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  • muito bem analisado, Gostei.

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