Os custos da desconfiança

Escrevo essas linhas depois do primeiro debate eleitoral entre os presidenciáveis no segundo turno. O confronto dos dois postulantes ao Planalto foi encarado pelos analistas mais como um festival de ataques do que como uma discussão programática e de governo. Pergunto: seria possível esperar algo diferente das posturas de Dilma e Aécio? A meu ver, não.

Dilma começou o segundo turno acuada. Primeiro por conta da instabilidade econômica, com o pico de inflação e a cada vez mais acentuada queda nas previsões de crescimento do PIB. Depois, por conta do fantasma da corrupção no núcleo petista, mais vivo do que nunca com o dito “petrolão” – o suposto esquema baseado nas denúncias do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Mesmo que, até agora, esse caso esteja somente no campo das denúncias, sem qualquer comprovação publicada, o arranhão na reputação de Dilma é profundo, e o sangramento custa a estancar. A candidata do PT é o sparring perfeito para Aécio, que vê nesses dois temas excelentes oportunidades para sobressair ao eleitor.

O candidato do PSDB, por sua vez, abriu um flanco perigoso à sua imagem ao exaltar, na campanha do primeiro turno, a sua gestão como governador de Minas Gerais. Agora, a campanha do PT tem fôlego e tempo de propaganda para apontar erros, abrir feridas e colocar em xeque a imagem de bom gestor que Aécio buscou construir. Esse cenário é favorecido pelo fraco desempenho de Aécio no seu estado de origem (perdeu para Dilma em Minas) e pela derrota do PSDB na disputa pelo governo do estado. Fernando Pimentel, do PT, foi eleito ainda no primeiro turno.

Mesmo a tímida agenda positiva dos candidatos é passível de bombardeio. Aécio busca oxigenar sua campanha com os apoios recebidos de correntes adversárias na primeira rodada de votações. Dilma vê nas alianças construídas para o segundo turno uma inconsistência de discurso por parte dos rivais. E mais: aproveita para dizer que são mínimas as chances de ser coesa uma aliança composta por Marina Silva, Eduardo Jorge e Pastor Everaldo, e endossada ao mesmo tempo por Silas Malafaia, Renata Campos e Roberto Freire.

Dilma tenta jogar a seu favor com os números dos programas de inclusão social – do Bolsa Família ao ProUni – o reconhecimento internacional da superação da fome e o impacto positivo do Mais Médicos. Aécio contrapõe mostrando falhas nos programas, sugerindo oportunidades de aperfeiçoamento e cutucando a petista sobre a tortuosa estratégia de remuneração dos médicos cubanos que estão trabalhando por aqui.

Propostas de consenso, cristalizadas nas duas campanhas, como a reforma política e o ajuste fiscal, ficaram em segundo plano nas agendas. Não é novidade. Afinal de contas, esses temas estão em propagandas eleitorais desde 1994. Ambos os pólos de poder partidário que hoje pelejam pelo Planalto já tiveram chance de levá-los a cabo. Não houve disposição política em nenhum dois para tocar essa empreitada.

A campanha está aberta. A carcaça moral dos dois partidos-capitães das coligações também. Estamos diante de um cenário de menos esperança e mais desconfiança, de parte a parte. Em 26 de outubro, o eleitor irá às urnas movido pelo ódio ou pela certeza? Vai votar no mais preparado ou no menos incoerente?

Uma eleição decidida sob esse clima custa caro ao país e à política. E quem vai pagar essa conta?

 

Varejão eleitoral

*artigo publicado na Folha de Valinhos de 27/09/2014

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Falta uma semana para as eleições 2014: hora de escolher presidente, governador, senador e deputados para a Câmara e para a Assembleia Legislativa. Muito se tem falado e escrito sobre as eleições majoritárias, o nível das campanhas e os prognósticos para o Planalto e o Palácio dos Bandeirantes, aqui em São Paulo. No entanto, pouco se pergunta e quase nada se escreve sobre as eleições proporcionais, para deputado federal e estadual.

Semana passada li um artigo na Folha de S. Paulo, de autoria do Hélio Schwartsman, que chamou minha atenção sobre a imensa quantidade de candidatos aos cargos legislativos. Você sabe quantos nomes estão à disposição, em São Paulo, para representar o estado na Câmara Federal? São 1.486 pessoas para 70 vagas. Para a Assembleia estadual, os números são igualmente assustadores: 2.128 candidatos disputando 94 vagas. Esse verdadeiro varejão eleitoral atesta, claramente, a falência do atual sistema político-partidário brasileiro. Entre tantos motivos, chamo atenção para três deles.

Primeiro: a amplitude das listas de candidatos tira dos partidos a responsabilidade de oferecer o que têm de melhor aos eleitores. Com a possibilidade de poderem inscrever até três vezes o número de vagas disponíveis na eleição, os partidos se eximem de fazer um filtro ético eficaz e abrem espaço para dois tipos moralmente questionáveis de candidato: o “puxador de votos”, que é conhecido do eleitorado, mas politicamente nada agrega; e o polpudo financiador, que engorda o caixa das campanhas e coloca em dúvidas a retidão de conduta nas agremiações.

A farra das coligações partidárias é outro vilão a ser combatido. Partidos rivais nacionalmente são aliados nos estados, e vice versa. Some-se o fenômeno dos partidos nanicos, muitos deles verdadeiros balcões de negócio, que são usados como meio de vida de suas lideranças para lucrarem com a locação de tempo no rádio e na TV. Temos diante de nós um sistema de alianças incoerente desde a raiz, que fragiliza qualquer construção de identidades ideológicas e transforma os acordos partidários em luxuosas casas de câmbio político.

Por fim, está escancarada a fragilidade de um sistema que permite uma votação tão ampla, que acaba por favorecer candidatos com maior potencial financeiro e dificulta a proximidade com o eleitorado. Como o candidato tem um estado inteiro de votos ao seu dispor, trabalhar por uma demanda clara ou focar em uma comunidade específica pode ser uma saída, mas tal estratégia é facilmente minada pelos candidatos que abusam da exposição midiática e investem pesado na propaganda. Há um jargão entre os marqueteiros que afirma: eleição se vence com uma trinca, composta por carisma, dinheiro e propostas. Os dois primeiros, no atual sistema, são os mais valiosos.

Voto distrital, voto em lista, financiamento público de campanhas, verticalização das coligações, cláusula de barreira… Esses termos passam pelos ouvidos da opinião pública a cada quatro anos, perto das eleições, como bandeiras dos candidatos (muitos deles postulantes à reeleição) que se dizem “contra tudo o que está aí”. O problema é que eles continuam aí. E nós, do lado de cá, permanecemos achando que só a urna basta pra que as reformas aconteçam. Consciência pra votar é fundamental. Disposição pra acompanhar os mandatos é mais importante ainda.

Tempus fugit

* Artigo publicado na Folha de Valinhos de 27/07/2014

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Morreu Rubem Alves. Um literato completo, cronista repleto de inspiração; um pensador loquaz, com a capacidade de captar a sutileza na complexa cadeia de relações em que o homem se envolve; um leitor perspicaz da mente, que está constantemente afetada pela dor e pelo prazer; um contemplativo da transcendência revelada, com uma genuína percepção sobre a presença divina na vida humana e na natureza ao seu redor.

Ao saber da sua morte, me lembrei de imediato de um dos seus livros de crônicas: “Tempus Fugit” (‘o tempo foge’ – ou, no popular português, ’o tempo voa’). Li-o quando me preparava para o vestibular. Com doçura e intimidade, Rubem Alves foi capaz, nesta obra, de consagrar o cotidiano à doce e, ao mesmo tempo, pesada condição da frugalidade. E me peguei pensando sobre o papel do tempo na vida humana.

Apesar da concretude dos relógios e da mecanicidade inconteste das engrenagens que fazem os ponteiros se moverem sincronicamente, o tempo medido pelos instrumentos é, antes de qualquer coisa, uma categoria humana – e, por isso, passível de subjetivação.  Afinal de contas, é possível se afirmar que alguém “perde tempo”? Qual a amarração mental que se pode fazer para definir se um tempo é bem usado ou desperdiçado? Diante dessa angústia do homem em relação à lida com o tempo, me lembro do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, um existencialista que cunhou o conceito de intencionalidade: ao decidir por uma atitude, um caminho, uma postura, o ser humano, ainda que de modo arbitrário ou inconsciente, renuncia a todas as demais infinitas possibilidades que a vida lhe oferece – inclusive a de pôr fim à própria vida.

Nosso contexto de vida pós-industrial nos coloca diante se suportes tecnológicos que, na rapidez de um clique, nos colocam em contato com pessoas que, sem essa preciosa ajuda, demoraríamos muito tempo para conseguir encontrar.  E, talvez iludidos pela armadilha da conectividade hodierna, estejamos perdendo chances preciosas de manifestar aos outros a frugalidade e a beleza de compartilhar o tempo. Sinto falta de participar de uma sociedade em que pessoas estejam dispostas a unir um segundo seu com um segundo de outros para terem, juntas, um segundo mais feliz – parafraseando a música que um dia foi tema de novela.  Mas, diante dessa corrida tresloucada pela sobrevivência, pelo sustento de cada dia, pela satisfação das necessidades que a ideologia consumista cria em nos, o que fazer?

Rubem Alves nos ajuda a responder: “Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será”. E, no fim das contas, ainda que a duras penas, a gente se convence de que o tempo, esse garoto serelepe, joga a nosso favor.

Consciência moral, educação e as eleições

*Artigo publicado na Folha de Valinhos do dia 21/06/2014

A reflexão que proponho nesta coluna não é fruto de uma ideia original. Fui despertado a escrever sobre o tema a partir da leitura de um artigo do jornalista Janio de Freitas, publicado na última segunda-feira (16 de junho) na Folha de S. Paulo. O colunista usou de contundência argumentativa para varrer o atual cenário politico do país e muitas das nossas atitudes cotidianas e constatou: o pouco de educação que restava ao brasileiro está escorrendo para o ralo.

A falta de educação parece estar intimamente ligada à construção da consciência moral. Lembrava o professor Clóvis de Barros Filho, em recente palestra realizada na CPFL Cultura, em Campinas, que a moral é construída a partir daquilo que você adota como critério para a sua atitude diante do seu próprio juízo, sem sistemas de vigilância ou normas impeditivas. O exemplo é simples: você, leitor, numa loja de conveniência, pede um lanche e deseja comer um bombom de sobremesa. Enquanto faz o pedido, você repara uma cesta cheia de bombons ao lado do caixa. A seguir, o único funcionário da loja se tranca na cozinha para preparar o seu sanduiche. Com a certeza de que está sozinho, sem câmeras, sem radares, sem vigilância, qual é a sua atitude? Surrupia, sorrateiramente, um bombom da cesta, ou espera vir o lanche, come-o, e, na hora de pagar a conta, pega o tal bombom e o inclui na despesa?

O sujeito dito sem educação passa por cima de reflexões desse tipo como um rolo compressor e segue a vida na ditadura da autopromoção e da valorização do seu próprio prazer e enlevo, em detrimento da boa convivência da comunidade. Note que educação aqui, pouco tem a ver com o que a escola se propõe a ensinar hoje. Ainda lembrando as palavras do professor Clóvis, nós sabemos mais sobre as organelas das células do corpo e das construções trigonométricas do que temos condições de efdificar uma boa argumentação que justifique nossa conduta moral. Deixo como uma pulga atrás da sua orelha uma pergunta: de que modo a relação entre escola e família pode ajudar a criar essa consciência moral?

Todo esse pano de fundo para chegar ao cerne da reflexão. Qual valor (se é que existe algum) está escondido nos xingamentos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo? Que consciência moral cultivam essas pessoas (a maioria delas, sim, privilegiadas por desembolsarem quase meio salário mínimo para pagar um ingresso) para promover um festival de baixo nível – palavras que não se falam diante de crianças, lembrou a presidente – em relação à chefe de Estado que, gostando ou não, a sociedade erigiu ao comando da nação?

Mais ainda: de quem é, em última análise, a responsabilidade pelos xingamentos? É só de quem verbalizou a baixaria? Temos diante de nós um determinismo histórico, que faz do brasileiro um bastião do besteirol? Ou se trata de uma fenda moral que marca a ferro nossa constituição social? Pra esclarecer – ou complicar ainda mais – essa discussão, um dado revelador do nosso “jeitão” revelado na via político-partidária: o PSB de Eduardo Campos critica o PSDB de Aécio, mas o PSB de Marcio França namora o PSDB de Alckmin. O PSD de Kassab afaga o PT de Dilma e critica o PSDB de Aécio, mas o PSD de Kassab flerta com o PSDB de Geraldo Alckmin. O PMDB de Temer “apoia” a reeleição na chapa do PT de Dilma, mas, em cada Estado, os “PMDBs” assumirão um palanque – ora ao lado dos PTs, ora dos PSBs, e ora até dos PSDBs. O PT de Dilma é aliado do PMDB de Temer, mas o PT de Alexandre Padilha é adversário do PMDB do potencial candidato Skaf.

A consciência moral, em suma, dita nosso julgamento sobre pegar ou não pegar o bombom na cesta e pauta as alianças que as agremiações políticas se dispõem a fazer. No que se refere às eleições de 2014, a cesta de bombons (o tempo precioso no rádio e na TV) está aí. E todo mundo mete a mão pra pegar o seu. Com ou sem o olhar do funcionário da lojinha.

Os nomes da elite

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Artigo publicado na Folha de Valinhos de 17/05/2014.

Nos últimos dez dias, li pelo menos quatro artigos sobre a elite brasileira – dois na Folha de S. Paulo, um na Carta Capital e um no blog do meu amigo Mauricio Savarese, jornalista especializado em falar do Brasil para os estrangeiros. Os textos, apesar das distintas linhas de abordagem, tratam de desenhar perfis da elite nacional – sua formação, sua índole, seu caráter, suas predileções, sua (não) politização, sua contribuição (ou desserviço) para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Enfim, fui rodeado de pareceres sobre essa elite e me coloquei a pensar sobre qual a influência dela sobre o contexto que vivemos.

Se pensarmos em economia, é inegável o papel da elite na produção de bens e no agronegócio. Na especulação financeira, no entanto, o papel da elite é muito mais pujante. Se a fatia dos mais abastados na produção e na circulação de capitais é uma realidade, ainda falta muito no que se refere à participação dos milionários – e não das empresas bilionárias – na composição da carga tributária brasileira. Num dos artigos que li, de autoria do filósofo Vladimir Safatle, ele lembra que jatinhos, iates e helicópteros são livres de uma tributação anual (semelhante ao IPVA que todo dono de carro, pobre ou rico, tem que pagar). O Brasil ainda reluta para aprovar uma legislação que tribute as heranças que passem dos sete dígitos (as milionárias, não a casinha que um pai de família deixa para os filhos). O lucro dos bancos nunca foi tão expressivo. O imposto sobre o pro labore patronal está na mesma faixa de um salário de R$ 6 mil mensais (em 27,5%).  E os “muito muito” ricos pagam o mesmo que um sujeito de classe média. A elite sai ganhando.

Se analisarmos pela matriz social, a elite brasileira pouco tem ajudado. Na verdade, faz a desigualdade até aumentar. Afinal de contas, a elite paga – e caro – pata ter qualidade nos serviços, terceiriza a infraestrutura que precisa ter (nos condomínios, clubes exclusivos e praias privativas, por exemplo) e não liga muito para a situação dos direitos fundamentais de qualquer cidadão: educação, saúde, transporte, moradia. A elite tem isso tudo porque pode bancar. Lembrava com propriedade o Mauricio Savarese: a elite brasileira faz questão de usar transporte público quando viaja para a Europa, mas não move uma palha para modernizar o nosso sistema. No Brasil das elites, ônibus e trem é para pobre. A elite também desdenha das mazelas sociais. Fala-se muito em redução da maioridade penal, por exemplo. Mas não se levanta uma voz para denunciar os esquemas de corrupção no sistema prisional e a evidente falência do modelo de reclusão hoje em vigor.

Essa mesma elite segue atravancando a vida social ao politizar seu discurso com a defesa de propostas como a flexibilização da CLT – legislação que protege o trabalhador e que custa caro a quem quer ter alguém trabalhando para si. Quem quer ser patrão precisa ter custos também. É a lei da selva do capitalismo. Por outro lado, estão fora da pauta política das elites uma ampla reforma tributária, que onere mais os que consomem mais; uma reforma política, que acabe com a promíscua relação entre milionários doadores de verba e políticos-marionetes; a gestação de um verdadeiro pacto desenvolvimentista, que supere os gargalos de infraestrutura e, ao mesmo tempo, acabe com as condições sub-humanas de trabalho, moradia e serviço público.

Mas afinal: quem é a elite? Ela não é composta somente por aqueles que herdaram os lugares mais altos da priâmide social num país desigualmente constituído desde a sua origem, e que usufruem dos privilégios senhoriais desde o tempo das capitanias hereditárias. Ser parte da elite não é apenas uma questão de conta bancária. É, antes, um modo de pensar a vida em sociedade. Quem pensa em viver sua brasilidade olhando só para o próprio umbigo tem também um pouco de elite dentro de si.

O Estado mínimo e a Copa do Mundo

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A doutrina clássica do liberalismo econômico, capitaneada pelo escocês Adam Smith (1723-1790), prevê no seu bojo a redução do papel do Estado em prol de uma economia que descentraliza decisões, amplia oportunidades de investimento e, em benefício da movimentação da cadeia produtiva, transforma a infraestrutura e os serviços em fontes de rendimento. Está aí, de forma muito sintética, a base do capitalismo forjado dos primórdios do Século XIX e defendido como projeto ideológico pelos EUA na Guerra Fria. Esse modelo de governança social mostrou-se favorável para o fluxo de capitais e a globalização econômica, mas teve a sua falência constatada no equilíbrio das relações comerciais, no controle desse fluxo financeiro e, principalmente, na gestão das políticas públicas e programas de integração humana e social.

No Brasil, desde o Império, o Estado caminha a passos mais lentos que a demanda por programas de garantia de direitos e de promoção da qualidade de vida. Vale lembrar o espanto que tomou conta da população quando o presidente Rodrigues Alves (1902-1906), decidiu fazer uma reforma no centro do Rio (à época capital da República), implementando projetos de saneamento básico e urbanização. O sanitarista Oswaldo Cruz comandou o processo que culminou com a conhecida Revolta da Vacina.

A Era Vargas e a ditadura civil-militar, que prometiam um Estado forte, capaz de abraçar a população e garantir ordem pública sincronizada com o desenvolvimento econômico e social, revelaram-se engodos homéricos para a população, com supressão das liberdades e com o surgimento de um abismo tremendo entre ricos e pobres – ainda que estes últimos tivessem acesso a direitos sociais, e não à renda.

Na virada para o século XXI, depois do desastre com Sarney e a decepção com Collor, o Estado segue se esvaziando. Na era FHC, esse processo ganhou corpo com as concessões, privatizações e leilões de empresas estruturais. Porém, a reversão dos lucros obtidos pelo governo em melhoria dos serviços públicos essenciais passou longe do ideal. Os oito anos de Lula foram vividos na esteira de FHC – apesar da dita oposição ideológica entre as correntes partidárias. A transferência de renda ganhou prioridade, colocando o investimento em serviços de qualidade em segundo plano. Inegável é o esforço do PAC e de programas como o Luz Para Todos. Todavia, os atrasos e aditamentos intermináveis em contratos maculam o propósito de progresso.  Em suma, grosso modo, os quatro anos de Dilma confirmam a tese de que, na sociedade do consumo, vale mais ao Estado garantir renda do que investir em serviços de qualidade. Nesse modelo, a roda da economia gira melhor com pessoas pagando por serviços em vez de cobrarem um controle efetivo dos investimentos, mesmo vivendo num país que consome quatro meses do ano trabalho em impostos e taxas.

O noticiário dos últimos seis meses amplia o cenário de minimização do Estado: a condenação dos envolvidos no mensalão no governo Lula, a iminente instalação de processo sobre um esquema semelhante em Minas Gerais na gestão de Eduardo Azeredo, o caso da refinaria de Pasadena, na Petrobras, as denúncias de um propinoduto dos trens na administração tucana em São Paulo – tudo engrossa a tese de que muito do dinheiro que estaria disponível para investimento se perde nos ralos da corrupção e do enriquecimento ilícito. Enfim, vivemos num Estado grande, mas com cabeça pequena: o funcionamento padrão das estruturas de serviço público virou sinônimo de eficiência, em vez de ser encarado como obrigação constitucional. Vivemos uma democracia em que a honestidade vivou virtude homérica em vez de ser uma obrigação moral – num cenário em que corromper-se é quase inevitável.

Em junho temos Copa do Mundo. A preparação do cenário para esse evento mostrou mais uma vez a incompetência para o planejamento e execução das obras de infraestrutura e o descaso de muitas autoridades em relação ao tal “legado” que o mundial de futebol deixaria em prol da população – a arena se Salvador talvez seja a única exceção entre as 12 sedes do mundial. O propagado trem bala que ligaria Campinas ao Rio e Janeiro, o monotrilho em São Paulo e o novo terminal de passageiros em Viracopos são três exemplos próximos das centenas de obras que foram prometidas para antes da Copa e que vão ficar para o Deus-dará.

Os protestos de junho passado mostraram uma crise de representação. E estamos às portas de mais uma corrida eleitoral. Vejamos o que a ainda imberbe democracia brasileira nos reserva para os próximos anos. De nossa parte, há muito que fazer: acompanhar a doação de campanhas, conhecer o currículo dos candidatos, verificar se promessas de campanha e projetos já implementados estão no mesmo tom, quem são os aliados, quais os partidos das coligações, votar de modo consciente. E, por fim, não perder a esperança.

Água e luz em xeque

Coluna na Folha de Valinhos, publicada em 22/02/2014

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A estiagem no verão que acaba de terminar no Brasil trouxe à tona fragilidades em dois setores fundamentais para o desenvolvimento e para a vida cotidiana da sociedade: distribuição de água e geração de energia elétrica. A crise rascunhada pela falta de chuvas já acendeu o sinal amarelo entre os especialistas federais em eletricidade e desacomodou as lideranças estaduais para a execução de obras emergenciais na captação de recursos hídricos. Afinal de contas, a chegada do outono abre a temporada de tradicional estiagem – e, diferentemente dos últimos anos, não choveu o esperado para estufar os reservatórios de distribuição de água e movimentação das turbinas em usinas hidrelétricas. Para piorar o cenário já pouco favorável, o país sediará a Copa do Mundo em junho e julho – meses em que a seca se agrava. A possibilidade de desabastecimento de água ou de falta de luz chega a arrepiar as lideranças políticas, que acabam por tentar acalmar os ânimos por meio de anúncios paliativos e pouco esclarecedores. O temor dos dirigentes fica ainda maior quando lembramos que estamos em ano eleitoral. Nesse período, qualquer aparente alarme de falência nesses setores estruturais pode ser fatal diante das urnas.

A falta de chuvas tirou o véu em relação à vulnerabilidade da nossa matriz energética, alicerçada no modelo hídrico e propagada pelo governo federal como grande força da nação. Vale recordar aqui os discursos inflamados de anos atrás sobreo reforço dos sistemas de transmissão e, principalmente, a segurança nas fontes de geração de energia. O governo Dilma chegou até a anunciar uma redução das tarifas para o consumidor final. Agora, com menos água, os preços voltarão a subir para poder manter as usinas termoelétricas em operação. Uma clara sinalização de que os passos dados na gestão do setor não têm sido acompanhados de um planejamento adequado.

Em termos de produção de eletricidade, o Brasil é país mais renovável do mundo, pois a geração de energia efetiva provém de cerca de 90% de fontes renováveis. Dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) apontam que o Brasil apresenta uma matriz elétrica com 123 GW instalados, composta por 69% de hidrelétricas, 10% de Gás Natural, 10% de Biomassa, 6% de derivados do Petróleo, 2% de Nuclear, 2% de carvão e 2% de eólicas.  O cenário futuro parece consolador. Ainda segundo a ABEEólica, de 2009 a 2012,  foram contratados 7,1 GW em energia eólica. Com o fim das obras de instalação, o Brasil deve encerrar o ano de 2017 com 8,8 GW de capacidade instalada de energia produzida a partir do vento. Se confirmada esse previsão, a matriz eólica passará a ter participação de 5,5% do total de energia produzida no país. Ainda é pouco para garantir sustentabilidade a uma matriz que depende tanto de energia hidrelétrica. Além disso, o modelo de leilão para exploração dessas “novas” fontes renováveis e a composição tarifária do setor são encarados como grandes entraves pelos investidores para a diversificação da matriz brasileira.

Quando se fala em distribuição de água, a situação parece ainda mais alarmante. O governo de São Paulo anunciou esta semana duas obras que prometem garantir o abastecimento: bombeamento da reserva técnica do sistema Cantareira (a “raspa do tacho” da represa) e o desvio de águas do rio Paraíba do Sul, que atende Rio de Janeiro e Minas Gerais. Essa última intervenção já causou chiadeira na equipe do governador Sérgio Cabral.

A questão de fundo, porém, não é a disputa política pelo recurso hídrico. Fala-se dessas obras emergenciais com uma espantosa naturalidade. Ao que parece, as lideranças políticas de São Paulo não se atentaram para o fato de que só no próximo verão as chuvas virão num volume que encha os reservatórios do estado novamente. A parcimônia do discurso do governador Alckmin não ajuda em nada a esclarecer o cidadão sobre a real situação dos sistemas.

Em Valinhos, a gestão do DAEV deu conta de contornar a fase crítica da estiagem de verão. O alerta para o rodízio de racionamento permanece. E precisa mesmo ser assim, pois a chuva não deve vir de um modo tão intenso até o final do ano. Melhor ser honesto com a população e dizer que não há água em abundância para todos do que ficar, como Dilma e Alckmin, empolando o discurso para evitar o desgaste político em ano eleitoral.

Luto por Santiago Andrade

Coluna na Folha de Valinhos, publicada em 15/02/2014
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Queria inaugurar esse espaço de discussão com você, querido leitor valinhense, de um modo menos incômodo. Mas, infelizmente, a semana foi marcada pela morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, da TV Bandeirantes do Rio de Janeiro, depois de ter sido atingido por um rojão durante uma manifestação no centro da capital fluminense. Um pai de família, com 49 anos, no auge da sua carreira, teve sua vida ceifada de modo covarde durante o exercício da sua profissão. Como reação, no meio da imprensa, não faltaram editoriais e artigos de opinião sobre esse lamentável incidente. Santiago é a primeira vítima fatal desse ciclo de protestos iniciado em junho de 2013. E sua morte amplifica o cenário de dificuldades que precisam ser urgentemente enfrentadas para evitar um colapso institucional no Brasil – o que seria grave em qualquer época, e mais ainda num ano de eleições e às vésperas do mundial de futebol.
Santiago Andrade é vítima de um grupo que se diz engajado, mas que perde a razão ao ir para a rua preparado para o confronto. Quem leva rojão para um protesto é, no mínimo, imaturo politicamente. Quem pensa a restauração do Estado com o uso da violência não entende o valor da democracia. Parece mais uma anarquia pós-moderna. Foi essa gente que, a despeito da intenção, feriu de morte o jornalista da Band. Uma militância oportunista, que se associa às legítimas e necessárias manifestações pela transformação social. O Estado republicano não pode aceitar a infiltração de grupos violentos aos protestos.
Santiago Andrade é vítima de uma política de segurança pública desarticulada, que há muito tempo perdeu sua dimensão preventiva e que se vê refém da baixa remuneração de seus agentes – o que abre brechas insondáveis para a corrupção das forças policiais – e acuada pela opinião pública, que já se cansou de ver posições extremadas dos agentes, tanto na omissão quanto no abuso. A missão de servir e proteger a comunidade, prerrogativa das forças públicas de segurança, está fragilizada pelo contexto atual: a situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão; os assassinatos em série ainda não solucionados em Campinas; o caso do suspeito de roubo que foi amarrado nu em um poste por moradores revoltados em um bairro do Rio de Janeiro – sinais que precisam levar a uma rápida revisão dos métodos e estratégias das forças policiais.
Santiago Andrade ainda é vítima de uma categoria profissional que se revoltou – com razão – pela sua morte, mas que há muito tempo está praticamente inerte em relação ao seu universo de trabalho. Arroxado por políticas salariais esdrúxulas, sufocado pelos egos inflados de muitos de seus pares, acuado pela transformação das mídias, o universo dos jornalistas carece de mobilização. Faltam posturas mais incisivas em relação a melhores condições de trabalho, remuneração digna e regulamentação eficiente da profissão. Não se viu uma iniciativa patronal de proteção aos profissionais em situações de conflito e as entidades que dizem representar a categoria não ofereceram nenhum suporte jurídico aos jornalistas.
Por fim, nos resta rezar por Santiago, seus familiares, colegas e, do mesmo modo, pela retomada da sanidade em meio ao iminente agravamento da crise social. Além disso, estamos em ano eleitoral – mais uma oportunidade de mostrarmos com o voto que uma sociedade diferente, mais democrática, e menos violenta, é possível no Brasil.

O carisma do Papa Francisco

Papa Francisco

 

O povo brasileiro não se cansa de se encantar com o papa Francisco, em visita ao país nesta semana para presidir a Jornada Mundial da Juventude. Desde segunda-feira o pontífice tem revelado, em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra, um impressionante carisma e uma capacidade ímpar de cativar a partir do nada. “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho de mais precioso eu vos dou: Jesus Cristo”. Recordando a palavra de Pedro diante do aleijado na porta do Templo de Jerusalém, em passagem contida no livro dos Atos dos Apóstolos, Francisco apresenta diante dos corações dos brasileiros uma dupla intenção.

A primeira, mais clara, própria dos papas, é a missionária. O papa não visita um povo em nome próprio, mas revela ser enviado por aquele que o chamou para o ministério na Igreja. A segunda é típica de Francisco. Seu modo de proceder desde a eleição para o bispado de Roma demonstra um ardente desejo de liderar uma Igreja que não ostente ouro e prata, que não se glorie dos seus triunfalismos anacrônicos e de sua pretensa primazia na aventura de salvar as almas. Francisco revela na sua missão como pontífice o desejo de anunciar a mensagem cristã a partir de uma outra dinâmica, descolada de qualquer vício de poder temporal ou de auto-congratulação.

A vontade de se fazer próximo dos brasileiros ficou evidente já no primeiro deslocamento entre o aeroporto do Rio e a Catedral Metropolitana. Francisco recusou a pompa do carro oficial e se colocou no banco de trás de um modelo mais simples, que até destoava do resto da comitiva. Com os vidros do carro sempre abertos, o papa despejou sorrisos do começo ao fim do trajeto, inclusive quando, por uma falha na condução do comboio, se viu espremido entre ônibus e uma multidão de fiéis ávidos por uma bênção, um toque, uma foto. Um simbólico tapa na cara da classe política brasileira, eleita em tese para servir. A jornalista Vera Magalhães perguntava, na terça-feira, em sua coluna na Folha de São Paulo: “quais das autoridades que foram atrás de fotos e bênçãos do papa franciscano poderiam se dar ao luxo de passear pela avenida Rio Branco com os vidros do carro (não blindado) abertos?”
Antes de apresentar qualquer arroubo de êxtase religioso, o discurso de Francisco na sua chegada ao Rio de Janeiro buscou integrar o papa ao cotidiano dos brasileiros que o acolhiam. O líder católico pediu licença para “bater delicadamente na porta dos corações” de cada habitante do país. Além disso, o papa exaltou a diversidade religiosa do povo brasileiro como um sinal de vida, e não como uma ameaça de excomunhão – conforme desejariam alguns adeptos de uma ortodoxia mais míope do que reta.

A delicadeza de Francisco anda de mãos dadas com a sua vitalidade. O papa fez questão, sempre que possível, de estar perto das pessoas. Francisco é gente, afinal de contas – uma postura que enche de receio os seguranças e provoca a ira de clérigos mais empolados e um tanto avessos às grandes manifestações populares. Sua disposição, colocada à prova na cansativa jornada até Aparecida, por exemplo, é mais um sinal de unção e de entusiasmo para a sequência de seus propósitos diante do governo da Sé Apostólica.

Outro ponto que reforça o carisma do papa é o seu modo especial de expressar a fé, a espiritualidade. Diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, o gesto do pontífice foi exatamente igual ao de todo simples peregrino que se dirige ao Santuário Nacional para rezar: Francisco estendeu a mão, tocou o vidro que protege a escultura e fez sobre si o sinal da cruz. Um ato de piedade popular, que revela a simplicidade do coração desse homem que carrega nos ombros, desde março de 2013 o desafio de tornar mais simples e humilde a instituição bimilenar que agora pastoreia

A homilia da missa em Aparecida é um capítulo à parte no desejo que Francisco tem de reformar os costumes e as práticas da Igreja – como fez o santo que inspirou o nome do pontífice no século XIII. Um sermão inclusivista, aglutinador, capaz de levar a maravilha do encontro com Cristo a todo ser humano que, de bom coração, se lança na vida por meio do desafio de partilhar. O pontífice resumiu seu recado aos fiéis com a recomendação de três “simples posturas”: conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria. Recado de um cristão, homem de fé, a todo homem e mulher de boa vontade, independente de sua crença religiosa ou de sua compreensão diante dos fatos do mundo.

A postura de Francisco quer trazer de forma mais explícita à realidade o desejo de um diálogo aberto e misericordioso entre o mundo e a Igreja – desejo expresso com primazia pelo Concílio Vaticano II, celebrado entre os anos de 1962 e 1965. Um catolicismo decididamente renovado, capaz de oferecer uma resposta de fé aos problemas que o mundo apresenta e de acolher de forma amorosa a adesão humana, cheia de limites, aos propósitos de Deus.

Francisco quebra paradigmas também ao desejar ardentemente estar perto dos que sofrem e são oprimidos. As visitas ao hospital São Francisco de Assis e à comunidade de Varginha, no Rio de Janeiro, são um recado profético do papa aos pastores e cristãos de todo o mundo: as dores de Jesus Cristo se renovam a cada dia nas dores dos sofredores, dos excluídos, dos marginalizados. Um olhar de cristão não pode se desviar dessa realidade, mostra o papa. Mãos cristãs não podem deixar de ser estendidas a esses irmãos, clama o pontífice. “Tudo que se partilha acaba multiplicado”, lembrava ele diante dos moradores da comunidade.

Francisco, em suma, encantou o Brasil. Mostrou que é possível liderar com autoridade sem ostentação; revelou que a Igreja de hoje precisa de muito desapego simbólico e material; contagiou a juventude com a sua vitalidade; mostrou ser um homem de fé, disposto a se deixar consumir em favor de sua missão.O papa atualiza com primor a frase que o santo da Idade Média afirmava ter recebido de Jesus Cristo crucificado: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja”. Que assim seja, santidade.

Os R$ 0,20 e a democracia

Editorial da Folha de Valinhos – 22 de junho de 2013.

Protestos na Câmara Municipal de Valinhos, na terça-feira (18)

Protestos na Câmara Municipal de Valinhos, na terça-feira (18)

As manifestações que tomaram as ruas de 11 capitais e tantas outras cidades, inclusive Valinhos, nesta semana ainda ecoam nos corações e nas mentes de muitosbrasileiros como um sinal candente de mobilização, revolta, incômodo com a situação política, econômica e social do Brasil. É fato que a selvageria de alguns manifestantes, a falta de tato de setores da polícia e as agressões a profissionais de imprensa geraram diversos focos de tensão – ruas de São Paulo, Rio, Brasília e Campinas viraram verdadeiros campos de guerra.Valinhos também presenciou atos violentos nas manifestações de terça-feira. Todavia, o pacifismo da imensa maioria dos que vão às ruas é algo digno de um ambiente republicano.

A onda de protestos já surtiu seus primeiros efeitos. Numa impressionante reação em cadeia, governadores e prefeitos país afora revogaram os aumentos de passagens anunciados ao longo do mês de junho. Em Valinhos, como frisou o próprio prefeito Clayton Machado, o “clamor da sociedade” foi decisivo para impulsionar a administração municipal a realizar o esforço orçamentário que vai permitir a volta do preço de R$ 3,00 na cidade.

A série de manifestações teve uma gênese clara – a questão do aumento das passagens de ônibus – e tomou proporções ainda maiores por conta de algum fenômeno que ainda espanta analistas, observadores e articulistas. Os R$ 0,20 que motivaram os protestos, ainda na semana retrasada, foram inflacionados pela multiplicidade de tantas outras “causas nobres” que apareceram no meio do caminho. O sociólogo Demétrio Magnoli dizia que as manifestações ainda estão em uma esfera “pré-política”, sem a definição de uma agenda clara.

Apesar de não se conseguir apontar o que deu ainda maisânimo aos movimentos – saúde, os custos com a Copa do Mundo, falcatruas nas esferas de governo, desvios em licitações, a demora em punir os culpados do mensalão – existe clareza em um ponto, como bem sintetizava ainda na segunda-feira o jornalista Sidney Garambone: “No âmago das manifestações, a crise da representatividade. Mas os políticos se recusam a refletir”. Essa tese tem consistência. Vale a pena pensar sobre ela.

A democracia brasileira é recente. Tem pouco menos de 30 anos. Os participantes dos movimentos dessa semana, em sua maioria, têm ainda menos. O sistema político do país viveu, desde 1989, um gradativo processo de descolamento das bases da sociedade. Esse fenômeno seintensificou ainda mais depois de 2002, com a eleição de Lula. Inegavelmente, a atuação de entidades representativas da sociedade civil (movimentos estudantis, sindicatos, associações de classe) foi apagada – ou politicamente aparelhada – com a ascensão de um ex-sindicalista ao comando do Executivo. A ideia do “povo no poder” resfriou na burocracia governamental aefervescência da discussão política que se dava nos chãos de fábrica, nas assembleias estudantis e nas reuniões sindicais. Somados a esse esvaziamento dos movimentos sociais estão a intensificação do fisiologismo político, a legitimação da barganha entre cargos e apoios parlamentares e o sufocamento – mais autônomo do que provocado – da oposição.

Essa realidade levou ao descrédito da política partidária. Os partidos viraram cabides, vitrines eleitorais. As siglaspartidárias passaram de celeiros de políticas públicas a suportes para políticos profissionais. Prova disso é a repulsa de muitos manifestantes à vinculação dos atos apartidos. Outra comprovação vem daqui de Valinhos: os manifestantes não concordaram em abrir diálogo com os vereadores na terça-feira. As ruas mostram que, na consciência popular que se aflora, ser apartidário parece ser o modo mais seguro e higiênico de se fazer política.

Depois de alguns atos mais acirrados de violência nesta quinta-feira, surgiu na pauta a discussão sobre o papel dos partidos políticos nesses movimentos. Setores mais à esquerda ainda não conseguiram digerir essa tal crise de representatividade. A revolta contra os partidos é sinal de descrença, de exaustão, e está longe de representar uma maquinação perversa contra a democracia. Um detalhe pontual: a revolta vem ganhando corpo, mas ainda não tem cabeça. As vozes que gritam por tudo podem acabar gritando por nada. A crise de representatividade que motivara as passeatas aflige o próprio movimento, em certa medida.

Existe, todavia, um outro dado especialmente importante para se iluminar a discussão sobre o rumo dos protestos: que História se quer construir com esses atos? A juventude que foi às ruas, motivada na velocidade de um clique pelas redes sociais, esbanja vitalidade, mas não mostrou ainda se tem a noção exata de que o manifesto de hoje é garantido graças a uma resistência que começara ainda nos anos 1960. A maturidade desse movimento espetacular pela intensidade inicial vai ser medida pela sua capacidade de mobilização e de sustentação ao longo do tempo.

Nessa esteira, falar em impeachment de quem quer que seja, no calor da hora, parece algo descabido – todos os que hoje estão no comando do Executivo e do Legislativo foram eleitos democraticamente. A demanda maior e mais clamorosa de ser por zelo com a coisa pública, transparência nos gastos, austeridade nos investimentos, honestidade na gestão e uma profunda reforma no sistema de representação popular.

Em suma, as ruas deixaram essa lição: nada mais sublime a comemorar do que a consolidação de um regime sem autoritarismos, sem violências e sem tiranias. A democracia não admite vozes embargadas.

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