Atendendo a sugestão da professora Mara Salvucci, compartilho um artigo acadêmico apresentado hoje em conclusão da disciplina que ela ministra (Educação e Sociedade B) lá na PUC Campinas.
Teorias psicogenéticas na rede particular de ensino
DA SILVA JR, Antonio M.; JESUS, Carlos R. de O.; BUOSO, Diego B.; MAGALHÃES, Edson A. I.; ZANGARI, Felipe; DA COSTA, Tiago R.
Graduandos de Filosofia da PUC Campinas
e-mail: felipezangari@yahoo.com.br
Orientadora: SALVUCCI, Mara
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo identificar as relações entre as teorias psicogenéticas e de interação apresentadas no decorrer do semestre com o ambiente escolar visitado durante o período de observação de campo. Trata-se de uma pesquisa panorâmica, sem a intenção de analisar com rigor as práticas pedagógicas ou processos de socialização do conhecimento desenvolvidos nas instituições observadas.
Palavras-chave: educação, inclusão, teorias pedagógicas, interação social.
Teorías psicogenéticas en la red particular de enseño
Resumen
El presente trabajo tiene como objetivo identificar las relaciones entre las teorías psicogenéticas y de interacción presentadas en el curso del semestre con el ambiente de escuela visitado durante el período de observación de campo. El estudio es una pesquisa panorámica, sin la intención de analizar con rigor las prácticas pedagógicas o procesos de socialización del conocimiento en las instituciones visitadas.
Palabras-llave: educación, inclusión, teorías pedagógicas, interacción social.
Introdução
A prática foi realizada no Colégio de Aplicação Pio XII – localizado à Rua Boaventura do Amaral, 354 – Bosque – Campinas – SP, e também no Colégio Senemby, localizado à Rua Curumim, 151 – Centro – Caieiras – SP. Ambas as instituições fazem parte da rede particular de ensino, e atendem todas as faixas da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio). Destaque-se que uma das escolas visitadas – o Colégio Pio XII – tem caráter confessional. Trata-se de uma unidade de ensino e órgão complementar da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, mantida pela Sociedade Campineira de Educação e Instrução, da Arquidiocese de Campinas. O Plano Escolar de 2009 afirma: “Escola de princípios cristãos, de fundamentação católica, respeita em sua totalidade os credos aqui existentes. As celebrações litúrgicas são propostas a todos os membros da comunidade em forma de convite com ampla participação”. O Colégio Senemby é conveniado ao Sistema Anglo de Ensino e traz, em seu Plano Pedagógico, a missão de “formar o cidadão capaz de atuar harmonicamente e conscientemente no desenvolvimento de nossa sociedade, comprometido com a justiça e aberto a Deus e ao próximo”. Sendo assim, esse artigo tem como objetivo analisar as relações entre teoria e prática no ambiente escolar. A metodologia para desenvolver esse artigo foi articulada em observação de campo, entrevistas com profissionais da área, alunos e funcionários das instituições visitadas, pesquisa bibliográfica e análise de documentos das escolas.
Articular teoria e prática: desafios e possibilidades
A partir do contato com as teorias de desenvolvimento psicológico – tanto por meio das leituras dos textos indicados quanto pela explanação em sala de aula, o grupo teve um breve substrato para buscar as relações entre as perspectivas abordadas pelos autores e os processos de ensino e aprendizagem desenvolvidos no ambiente escolar. A observação sala de aula e as entrevistas com as equipes de trabalho nas duas instituições resultaram a percepção da influência dos autores trabalhados (Piaget, Vygostsky, Wallon, os novos russos – Leontiev e Davydov, 1992) na relação professor e aluno e também entre os colegas.
Na relação professor e aluno, percebe-se em ambas as instituições o expediente da mediação como estratégia de desenvolvimento pedagógico. A intervenção do professor e a realização de atividades em grupo entre os alunos são indicadores de uma preferência pela autonomia da criança na construção do conhecimento. A socialização da linguagem – por meio da leitura coletiva, partilha de interpretação e incentivo ao contato com o livro – é outra característica de Vygotsky (1992) muito presente nas instituições visitadas. Um detalhe marcante, na observação das turmas do Ensino Fundamental, é que todas as atividades apresentadas têm o objetivo impresso e socializado entre os alunos/as.
Nas duas instituições visitadas percebeu-se um cuidado dos professores/as em respeitar os estágios de desenvolvimento apresentados por Piaget (1992). Na sala de quarto ano (com crianças de nove anos de idade), por exemplo, as atividades de matemática ainda não traziam o conceito de variável. Na conversa com a professora responsável pela sala, foi revelada a preocupação em não apresentar uma abstração que as crianças ainda não seriam capazes de acompanhar – como numa equação em que apareça a figura do “x” como elemento a ser calculado. Dá-se preferência por situações-problema em que são dados exemplos de objetos compatíveis à realidade das crianças, como frutas, balas, doces, compras no supermercado, entre outros.
Com as crianças entre 4 e 9 anos, nas duas instituições, o horário do intervalo é feito com toda a turma, estimulando a relação interpessoal e o desenvolvimento da relação de reconhecimento do outro. Percebeu-se, no Colégio Pio XII, uma grande interação entre desenvolvimento motor e estímulo intelectual. Foi possível visualizar essa relação num trabalho interdisciplinar desenvolvido com as crianças de segunda série. O professor de Educação Física promoveu uma atividade de salto em distância. Cada salto foi medido com um pedaço de barbante. As crianças, na semana seguinte, apresentaram o barbante com o tamanho do salto à professora, que usou esse material para trabalhar a noção de metro e a seriação entre comprimento maior e menor. Outra característica que chamou atenção nas duas instituições foi o uso da dimensão lúdica, com atividades de música, teatro, contadores de histórias, entre outras. Tal aspecto favorece a relação entre motricidade e aperfeiçoamento intelectual, apregoado por Wallon (1992), além de estimular a afetividade e a criatividade na projeção da linguagem interior.
A partir do estudo sobre escola e inclusão, realizado na Universidade, o grupo pôde constatar, como primeiro ponto de análise, a estrutura privada das duas escolas. Ambas as instituições têm, como fonte primordial de captação de recursos, a cobrança de mensalidade. Além disso, os dois planos escolares apresentam o termo “classe média” para caracterização sócio-econômica da clientela. No caso particular do Colégio Pio XII, ganha destaque a grande quantidade de alunos bolsistas. 41% dos estudantes têm bolsa parcial (50%) por serem filhos de funcionários da PUC Campinas e do Hospital Celso Pierro (mantidos pela mesma entidade). Outros 3,9% dos alunos têm bolsa integral por serem filhos de funcionários do próprio colégio.
Nas duas escolas visitadas ficou visível a preocupação em incluir pessoas com deficiência ou necessidades especiais no processo pedagógico, possibilitando inclusive a conscientização dos alunos para acolher as limitações de cada criança. Em duas turmas acompanhadas, havia alunos em condição especial – um menino autista e uma garota com Síndrome de Dawn. Nas duas instituições, o acompanhamento dos pais e responsáveis – especialmente dos alunos incluídos – é incentivado, inclusive com a intervenção de profissionais especializados (fonoaudiólogo, psicólogo, entre outros), tanto dentro da escola quanto no ambiente familiar. O Colégio Pio XII, em parceria com a PUC Campinas, mantém ainda uma sala do CIAD (Centro Interdisciplinar de Atenção ao Deficiente) em que é realizado um trabalho gratuito de inclusão de pessoas da comunidade que tenham alguma deficiência mental ou motora.
Considerações Finais
Tendo em vista que o objetivo desse trabalho é estabelecer relações entre as teorias analisadas em sala e os processos desenvolvidos no ambiente escolar, conclui-se que muitas das contribuições dos teóricos são, de fato, aplicadas no ambiente de campo visitado. Além disso, percebe-se na formação do professorado que atua nos espaços citados a consciência sobre a importância dessas teorias e o caráter socializante do trabalho com os estudantes.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICACOLÉGIO PIO XII. Regimento Escolar. 2009
_____________. Projeto pedagógico. 2009
COLÉGIO SENEMBY. Regimento Escolar. 2009
_______________. Projeto Pedagógico. 2009
DUBET, François. Tema em destaque currículo, exclusão, inclusão. A escola e exclusão. Cad. de Pesquisa, n º 119. São Paulo. 2003.
LA TAILLE, Yes de. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. Yes de La Taille, Marta Kohl de Oliveira, Heloysa Dantas. São Paulo, Summus, 1992.
LIBÂNEO, José Carlos. A didática e a aprendizagem do pensar e do aprender: a Teoria Histórico-cutural da Atividade é a contribuição de Vasili Davydov. Revista Brasileira de Educação. Nº 27, set/out/nov/dez 2004.
_________ (org.); FREITAS, Raquel A. M. da M. Vygostsky, Leiontiev, Davydov – Três aportes teóricos para a teoria histórico-cultural e suas contribuições para didáticas.