A blogosfera petista que tem complexo de motoboy

Há alguns anos uma amiga estava parada no trânsito da Marginal Pinheiros às 19h. Chovia. Eis que um motoboy apressado não consegue frear, aquaplana e se arrebenta na traseira do carro. Lamentavelmente morreria horas depois no hospital. Mas não sem que seus colegas de ofício, ainda com o corpo do rapaz no asfalto, rodeassem a moça de 1,60 m de altura para pressioná-la a assumir responsabilidade que não teve pelo acidente. Afinal, devem ter pensado, ela tinha um carro razoável e a culpa não pode ser do mais fraco. Nunca.

Na delegacia, duas horas mais tarde, o delegado nota que ali estavam dois tipos de motoboys para reforçar a acusação. Uns queriam vingança contra todos os motoristas do mundo, personificados nela. Outros estavam interessados em achacar a jovem, fazê-la pagar indenização à família e a arcar com despesas que nada tinham a ver com a tragédia. Conseguiram apenas incomodá-la com ataques sem sentido. Não colou.

Com efeitos menos letais, é isso que acontece com a parte sem inteligência da blogosfera petista na Internet. Enquanto a parte boa, com eventuais exageros e omissões, produz conhecimento e debates importantes, a parte ruim se limita a reforçar um ranço autoritário e perigoso para a democracia na Internet, porque confunde liberdade de expressão com liberdade de agressão. Enquanto a parte boa sabe que não sobrevive se alimentando das mesmas ideias, conversa com gente de outros partidos e sabe a importância que tem, a parte ruim só consegue ser auto-referente, porque tem dificuldade de raciocínio para lidar com um mundo complexo e que não é todo seu. Coitados.

Escrevi esse longo intróito para contar que no último mês de 2009 aconteceu algo parecido comigo, quando um motoboy virtual acertou meu veículo parado na web, me culpou pelo acidente, cobrou indenização e, diante da recusa, gritou pedindo a ajuda de uma turma de aloprados para me pressionar. Como no caso da minha amiga, o tempo se encarregará de condenar esse tipo de gente que ataca para defender o espírito de corpo. E que em nome de ideais ditos nobres comete grandes atrocidades. Comigo não colou.

Traduzindo em fatos: um senhor foi ao meu blog para me acusar de ter entrado em seu espaço na Internet para xingá-lo. Por quê? Porque o blogueiro criticou um texto jornalístico meu. Em sua lógica tacanha, um repórter criticado por seu trabalho sai pela web para revidar. O dono dessa mente fértil, sobre quem nunca tinha ouvido falar, acha que faço isso.

O argumento? Assim agem todos os que trabalham em veículos que as pessoas lêem – os boicotados pelo puxa-saco mor e ex-jornalista Paulo Henrique Amorim. (Esse modelo do meu acusador é o que joga no lixo a liberdade de imprensa para, sem provas, acusar gente honesta de se vender para tucanos, para o presidente do STF e por aí vai. Conheço duas pessoas nessa situação e uma já venceu a primeira na Justiça. A outra desistiu de processá-lo porque é uma moça generosa. Mesmo ofendida, perdoou.)

Enfim. A prova de que xinguei o rapaz? A identificação digital mostra que é de São Paulo o anônimo que fez o suposto comentário – não publicado, obviamente. E que o comentarista chegou a seu site bobinho depois de uma busca com o meu nome. Como sou um jornalista irrelevante, sempre de acordo com nosso elementar Watson, só eu faria isso. Mesmo escrevendo sobre política há cinco anos, agora no site mais acessado do país e em uma cidade com mais de 10 milhões de pessoas. Conclusão de gênio do mistério.

Mesmo assim, diante desses argumentos e de outros que também pesariam para pessoas razoáveis, o blogueiro escreveu um texto digno de 5ª série, com meu nome e minha foto, me acusando de racismo, de ser corrupto e ainda com ameaças de agressão. Brincadeira de criança.

Quando cobrado a provar seus ataques, judicialmente se eu achar melhor, o blogueiro apelou à liberdade de expressão que não sabe usar, assim como milhares de investigados na delegacia de crimes virtuais. Seus colegas da parte abestalhada do petismo online – da qual felizmente não fazem parte pessoas a quem respeito – repetiram, com menos talento, aquilo que criticam na mídia que tanto detestam: foram correia de transmissão de um pensamento estúpido só porque o mensageiro compartilha da mesma estupidez.

Espero que um dia se corrijam, como cobram da mídia que chamam de golpista. Mesma mídia que na cabeça desses desconhecidos eu represento – e, seguindo essa lógica torta, me torna merecedor de agressões infundadas.

Mas tudo bem. Eles não se desculparão e terei de confiar apenas no preceito de que a democracia demora, mas dá o tratamento merecido.

No primeiro post deste ano eleitoral, meu caso ajuda a lembrar que está por vir uma série de ataques de gente comprometida apenas consigo mesma ao trabalho jornalístico no Brasil. Por mais que a mídia tenha defeitos e que cometa exageros e omissões muitas vezes injustificáveis, haverá muita gente interessada em censurar material de reportagem por razões partidárias. Assim como haverá gente que fará agressões travestidas de opinião.

A blogosfera ruim dos petistas é mais organizada que a blogosfera ruim dos tucanos, mas ambas sofrem da mesma doença infantil que leva ao complexo de motoboy. Enquanto uma é intolerante com a imprensa, como se não houvesse amanhã, a outra não percebe que o governo do presidente Lula é popular porque é o melhor desde a redemocratização. Ambas se unem apenas para negar os próprios mensalões e defender a intransigência com o outro lado. São primatas e não as leio. Nunca.

Mas acho que quem se esforça para entender o fenômeno da blogosfera não pode simplesmente calar. Blogosfera surgiu para provocar debates e difundir ideias, e não para ganhar no grito. Eu sempre opto por falar. Porque eles não vão ganhar.

Os motoboys de verdade ainda colocam em risco o emprego e a própria vida para serem instigados a tanto instinto de sobrevivência. Os irresponsáveis virtuais jogam apenas com o prestígio que mal chegam a ter. Uns bobocas.

11 Comentários

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  • complexo de motoboy. genial.

  • Comparação perfeita e descrição do modus operandi idem, Maurício.

  • você tem minha total e incondicional solidariedade!
    infelizmente os motoboys-que-aquaplanam-sempre-sem-rumo vestem camisas de todas as cores, gênero, número e grau. já fui, digamos “incomodado”, por um demo-tucano, como poderia ser um outro imbecil qualquer, já que essa espécie, já predominante na vida real, parece cada vez mais dominante na vida virtual.
    mas como diria são mário quintana, “eles passarão, eu passarinho”. sem nunca se esquecer da sabedoria de jean-paul sartre, que dizia: “por que esses filhosdaputa não vão tomar no cu deles, porra?”
    abraço!

  • A selvageria vai perder é o meu mote para 2010. É a única campanha que vale a pena. Parabéns, meu!

  • Savarese, texto e comparações perfeitos. Mas faço uma observação: petistas de última hora, esses motoboys são, na verdade, governistas. Quinze anos atrás, não defenderiam com tanta garra as pessoas que hoje defendem a qualquer custo.

  • Parabéns pelo post!

  • Não acho que seja um fenômeno restrito aos petistas. Vejo comportamento similar nos comentaristas do portal do Estadão, por exemplo. O grande problema é que as pessoas não debatem, agridem. E não importa se o cara é Fla ou Flu. Imbecil tem em tudo que é lugar

  • Protozoários virtuais abundam na internet, de fato. Sua crítica, quase um desabafo, é um bom norte para esse ano eleitoral que está começando. Mas ainda há muita gente boa, felizmente, e em todos os lados. Ainda bem.

  • O petista pitbull (ou motoboy, como você apelidou) acha que tem o monopólio da esquerda. Quando alguém que não é extremo (PSOL ou PSTU) diverge dele, é de direita. Só que o PT não é mais de esquerda na concepção política. Quem acha isso é, acima de tudo, burro. Feno neles!

  • O meu comentário acima saiu com uma info errada: PSOL e PSTU são os extremos. Quando alguém que não é extremo como esses dois bate no PT, imediatamente é considerado tucano ou coisa parecida. Enfim.

  • Concordo que é sempre fácil perder o foco quando os sentimentos e frustrações estão no comando, mesmo que num instante.
    Mas usar a classe dos motoboys como exemplo de má conduta, é muito Bóris. Acaba com o argumento de quem gostaria de defender a isenção de qualquer coisa.
    O Motoqueiro é louco, o Haitiano é macumbeiro, O Brasileiro é alienado, será? O mundo não é tão simples assim..

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