O fator Kassab nas eleições 2010
Esqueça a gestão da crise das chuvas em São Paulo. Das que vieram e das que virão. Leve em conta que no Orçamento da capital paulista em 2010 estarão destinados cerca de R$ 25 milhões para lidar com esse problema, enquanto recordes R$ 125 milhões irão para propaganda. Isso tem um óbvio efeito sobre a percepção da população. E é aí que o prefeito Gilberto Kassab, do quase extinto DEM, pode interferir na eleição presidencial.
Na convenção do PMDB de São Paulo comentava-se à boca pequena. Mas a avaliação já chegou a Brasília e aos outros partidos: Kassab pode ser o candidato confiável de que o governador José Serra precisa para ser presidenciável sem deixar no lugar um adversário interno como Geraldo Alckmin, ex-governador e favorito nas pesquisas.
É fato que Serra teve de engolir Alckmin como seu secretário do Desenvolvimento, mas com sua bancada de deputados estaduais e federais o ex-governador tem aliados importantes no partido. Não serão desprezados. Ao mesmo tempo, o candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2006 sabe que voltar ao Palácio dos Bandeirantes não dará a ele mais visibilidade do que já teve. Poderá fazer isso – teimoso que é – apesar do risco de ser ainda mais visto como um político paulista. Pro resto do Brasil isso não pega bem.
O movimento em favor de Kassab ocorreria com anuência do próprio Alckmin e do presidente do PMDB paulista, Orestes Quércia. Com o prefeito demo candidato ao governo, Alckmin seria levado a se candidatar ao Senado. Quércia, que fechou acordo com os tucanos exatamente por causa dessa vaga – incertíssima para um político cada vez menos popular como ele – estaria satisfeito em herdar a Prefeitura de São Paulo, cuja vice, Alda Marco Antônio, é sua fiel aliada. O círculo fecha.
Falta combinar com o chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, preferido de Serra para concorrer ao governo, mas cujo desempenho nas pesquisas não passa de 5%. A compensação poderia ser um cargo importante caso o governador paulista vença as eleições presidenciais – cujo futuro parece cada vez mais turvo. Um 2010 divertido nos espera. Até lá!
Que 2010 será bem divertido, não restam dúvidas… Mas acho difícil Serra querer comprar briga, a esta altura do campeonato, com a ala do Picolé de Chuchu no PSDB (irrelevante nacionalmente, como o próprio Alckmin, mas muito forte em São Paulo).
Além do mais, o critério que justifica Alckmin candidato ao governo do Estado é o mesmo que dá a Serra credenciais para disputar o Palácio do Planalto – os números nas pesquisas. Não dá para imaginar o PSDB embarcando em uma candidatura como a do Aloysio, com minguados 5% das intenções de voto. E não acho que o DEM de Kassab, principalmente depois do panetone do Arruda, tenha cacife político para pleitear a cabeça da chapa ao Palácio dos Bandeirantes.
Isso sem contar o desgaste político sobre a dupla Serra/Kassab caso o atual prefeito repita seu antecessor e abandone o cargo antes do fim de seu mandato. Fora de cogitação, imagino eu.
Ao que tudo indica, por incrível que pareça, o PSDB parece estar relativamente mais bem organizado agora: Serra candidato à Presidência, Alckmin ao governo do Estado e Quércia (eca!), do PMDB, ao Senado. A dúvida, hoje, é só uma e tem nome e sobrenome: Aécio Neves.
É o que eu pensava, Fábio, mas a possibilidade Kassab está aí nem que seja só pra jogar mais névoa no ar. E o círculo fecha se isso se concretizar. Lógico que haveria desgaste e Kassab não é tão conhecido quando Serra para sair de um cargo, se candidatar a outro e ganhar sem suar muito. Mas é pra isso que estão fazendo pesquisas internas com o nome do prefeito. Sem contar que ele não é muito do DEM, ele é mesmo aliado do Serra, é um quase tucano.
Sobre o Aécio: o cara espera que o PSDB venha de joelhos pedir pra ele ser candidato se Dilma disparar nas pesquisas. Imagine um petista pensando: “Esse Aécio é novidade e pode ser perigoso, melhor a gente não bater tanto no Serra pra não correr risco de ele desistir”. Imagine um tucano pensando: “Se eles não vão dar chance, por que vou eu? Vou ficar quietinho sobre ele e tocar a minha vida sem solavanco até março”. Pronto. Prazo de desencompatibilização e decisão irreversível tomadas. Tchau, Aécio.
Não creio em Kassab para governador, a má fama do prefeito já ultrapassa as fronteiras paulistas. Porém, creio, sim, na ganância, na falta de sinceridade, de ombridade, de compromisso público. Serra largou o cargo após comprometer-se em rede de TV que não o faria, Kassab pode fazer o mesmo. E daí? Ambos vem administrando à base de propaganda e de jogar a culpa no alheio, um com obras a toque de caixa e de qualidade duvidosa, outro com medidas não muito populares mas isso na propaganda é maquiado.
Aguardemos janeiro e fevereiro para reavaliar o quadro, os carnês de IPTU, as passagens de ônibus e depois as de Metrô farão uma grande diferença.
Há muita água por passar embaixo da ponte, algumas estão paradas desde 08 de janeiro.