DEM é menos mensaleiro que os outros
Não há como fazer concessão nisso: enquanto os dois partidos que se dizem mais ideológicos no Brasil, PT e PSDB, pouparam seus figurões dos respectivos escândalos de compra de apoio com dinheiro de caixa dois, o Democratas, apenas um arremedo do caquético PFL até pouco tempo atrás, vai botar para fora seu único governador. Não é pouco.
É verdade que as imagens do Panetonegate são tão pornográficas que pouco poderia fazer o partido para poupar seus mensaleiros. Mas o fato é que não os está poupando. E ainda promete tirar a legenda do governador José Roberto Arruda, seu vice, Paulo Octávio e outros envolvidos a um ano da eleição – o que, na prática, não apenas os impede de concorrer à reeleição, mas também os entrega à Justiça comum, uma vez que perdem o foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF).
No seu pecado original, os petistas se limitaram a expulsar o ex-tesoureiro Delúbio Soares e pressionar pela saída de outros membros da cúpula acusada de envolvimento no mensalão, como o ex-presidente José Genoino, o ex-secretário-geral Silvio Pereira e o ex-secretário de comunicação Marcelo Sereno.
O PSDB foi ainda pior: nadíssima fez, poupando o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo e o ex-ministro Pimenta da Veiga, atribuindo toda a responsabilidade ao empresário e bode expiatório número 1, Marcos Valério, pivô do maior escândalo do governo Lula.
Nas eleições de 2010, PT, PSDB e DEM terão no currículo um mensalão. A diferença, latente nas declarações de líderes e na pressão para que Arruda deixe o partido, é que os mensaleiros do Democratas devem ganhar um pontapé nos fundilhos, e não abraços de solidariedade. Pelo menos no quesito mensalão, o DEM tem mais autoridade moral para falar.
Antes de mais nada, o DEM não tem autoridade moral pra se chamar “Democratas”. Depois – e tampouco – tem autoridade moral pra se chamar “partido”, na medida em que não passa de um grupo de indivíduos que não trabalham por outra coisa que não o próprio poder. Nesse cenário de cada-um-por-si, são bem naturais as expulsões dos filiados fortemente expostos em escândalos, como meses atrás foi o Edmar Moreira. Outros casos, graves, mas nem tão escancarados, como do Sen. Efraim Morais, não mereceram expulsão. PSDB e PT, por mais estruturados agüentam mais o desgaste dos escândalos em prol de uma união em torno de um projeto político.
Concordo, companheiro.
Não tem vídeo do Zé Dirceu pegando dinheiro de propina e colocando na sacolinha. Em compensação, ninguém da turma do Arruda ganhou Land Rover de presente – pelo menos não temos notícia disso ainda. O fato é que, com mais ou menos polidez no trato com os transgressores, os partidos sofrem do mesmo mal: a picaretagem disseminada.
Surgem duas verdades dolorosas e uma pergunta provocante a partir desse caso Arruda:
Verdade nº 1: isso é deplorável e revela a total ausência do mínimo de embasamento ético;
Verdade nº 2: nossa sociedade é que elege gente como essa.
Pergunta: A sociedade é reflexo da política partidária ou a política partidária é retrato da sociedade?
Outro detalhe importante nesse imbrólio é que as provas contra os mensaleiros do DEM, foram conseguidas pela PF, através de delação premiada, que beneficiou um dos principais envolvidos no esquema, se não o maior deles!
Esta é uma prerrogativa que só o pt teve, pois podia oferecer imunidade ao dedo duro dos mensaleiros dos outros partidos.
Ah, mas que bobagem. Você não se pergunta se o DEM terá a coragem de dar ao Paulo Otávio, tão atolado na lama quanto o Arruda, o mesmo tratamento que deu a esse, não é? Seu raciocínio é raso por isso: não é verdade que o DEM tenha interesse em ver tudo esclarecido, apenas quis se livrar do Arruda e pronto. No caso do Paulo Otávio, pasme, os caras dizem que não é a mesma coisa simplesmente porque no vídeo não é ele que está recebendo dinheiro, mas “apenas” um seu assessor. Daí eu infiro que o calvário de Arruda, na ótica do DEM, se deve à sua imprevidência e não à sua venalidade. Não houvesse vídeo, o defenderiam, ainda que ficasse evidente ser chefe de uma quadrilha disfarçada de governo. Quer outro argumento revelador da profundidade de sua análise? O DEM pedirá o cargo de Arruda? Não, né? Porque, como disse, não interessa sanear o governo, mas se livrar do amador Arruda, pego pela segunda vez em atos criminosos. Só investiram na tese de que o cargo eletivo é do partido quando temiam se igualar aos nanicos na Câmara.
O dia em que a UDN tiver moral pra falar de corrupção ou de democracia, mudemos de país, que esse acabou.
João, o texto é pra ser uma ironia. É claro que o DEM só entregou o Arruda porque as imagens falam por si. E que não vai querer entregar o Paulo Octávio por falta de imagem, não por falta de prova.
Assim como não puniu a senadora Rosalba Ciarini na época da farra das passagens – é muito próxima ao líder José Agripino Maia – e só expulsou o Edmar Moreira porque era recém-convertido, o DEM – como todos os partidos que têm cargos importantes – é tão mensaleiro quanto os outros.
Com a diferença de que é um partido que tem pouca gente de expressão hoje em dia e teve de rifar um dos dois que tinham sobrado.
Obrigado pela leitura