O poder da televisão

Duas da tarde de uma sexta-feira pré-eleitoral na província rebelde do Uruguai. Almoço numa mesa à beira da janela de um restaurante do centro de Montevidéu e vejo um rapaz vestido de Zorro, parado como uma pedra. Ele espera donativos. Ninguém dá ni pelota. É só um otário fantasiado, brandindo uma espada inofensiva e à espera do fim do dia.

Mas sua sorte acabou mudando.

Um doido surge com máscara de Homem Aranha e roupas comuns. Seu objetivo é desconcentrar o Zorro, fazê-lo rir. Assume posição de cócoras, abre as mãos como se estivesse jogando uma teia e se coloca ao lado do otário inicial. Depois de uns três minutos, o falso herói não aguenta e ri do maluco que acabara de aparecer. Rio também.

No fim das contas, era tudo uma armação de um programa de TV que promove pegadinhas inofensivas por aí – não as apoio, sempre preferi o humor agressivo nível Ivo Holanda.

Mas isso já basta para o Zorro de brincadeira desistir por alguns momentos da posição ridícula, botar banca e descontraidamente bater papo com o humorista Homem Aranha, o câmara e toda a equipe da TV que ali estava.

Ele era só um idiota qualquer. Agora não: ele é o idiota que estará na televisão. E saberá aproveitar cada segundo da presença da equipe da pegadinha ao seu lado.

Foi por isso que brotaram admiradores do Zorro de pedra. Crianças pedindo para tirar fotos com ele. Por uns tantos minutos, pessoas deixaram moedas em sua caixinha. As mocinhas já paravam para assisti-lo enquanto o câmera o filmava ao lado do humorista.

Até que a equipe da TV termina o trabalho e vai embora.

Não passam dois minutos para ele voltar a ser apenas o Zorro idiota que estava parado no meio da rua. Ninguém o quer mais. Ele seguirá lá, impassivo, até o fim do dia se precisar.

Talvez tudo volte ao anormal quando o programa finalmente passar na TV.

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