De volta ao Serra contra todos?
A pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste domingo ajuda a mostrar que a eventual candidatura da senadora ex-petista Marina Silva ao Palácio do Planalto não tem nada de bicho papão e, no fim das contas, não interfere muito na estratégia do governo de eleger sua ministra para suceder Lula. O cenário que vejo se repetir é o de José Serra contra os outros todos, assim como em 2002.
Em 2002, além dos graves problemas do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, Serra tinha de lidar com o favoritismo de Lula e os adversários Ciro Gomes e Anthony Garotinho, todos descendo o sarrafo no governo federal. No segundo turno, todos desembarcaram na canoa do petista contra o tucano – incluindo aí boa parte do PMDB, que tinha a vice na chapa de Serra.
No ano que vem, em um cenário que parece propenso a se consolidar, haverá Serra contra a candidata do coração do presidente, Dilma Rousseff, e dois ex-ministros do seu governo, Ciro Gomes e Marina Silva.
Embora Marina tenha maior afastamento do governo que os outros dois, como vai desconstruir a atual gestão ao ponto de complicar sua vitória? Como fazer isso em um partido que participa de praticamente todos os governos onde pode, sem nenhum pudor?
Sem contar que Marina provavelmente atrai ao público com maior escolaridade. Que terremoto poderia ela fazer nas eleições presidenciais com esse cenário? Ainda que não venha a declarar apoio a Dilma, sua rival, duvido que seus votos migrariam integralmente para Serra.
Os de Ciro, nem preciso dizer, só podem ir para Dilma.
Parece que vem repeteco por aí, com a diferença de que agora o governo é popular, enquanto em 2002 sua popularidade estava no chão.
Hum… Sei não, sei não, acho que essa análise pode ser precipitada. Mesmo porque Marina Silva nem se decidiu ainda pela filiação ao PV, muito menos pela candidatura à Presidência da República (embora eu torça muito por isso, hehehe).
Segundo o Blog do Noblat, o PSB já tem pesquisas que mostram que a maior parte dos votos de Ciro Gomes migraria para Serra (!!!) caso o peessebista desistisse da campanha nacional. Lula já teria sido informado sobre esses números, e Ciro e o PSB já teriam comunicado ao presidente que haverá candidatura própria do partido ao Planalto.
E não acho razoável a hipótese de Marina apoiar Dilma no 2o. turno, mesmo tendo feito parte do governo Lula por seis anos e com mais de 30 anos de PT na bagagem. Depois de tanta dor de cabeça nos embates internos com Dilma no governo, por que diabos Marina a apoiaria agora?
Além do mais, o verde Fernando Gabeira, muito mais próximo de Marina do que Dilma, será Serra de carteirinha em sua candidatura ao governo do Rio. O mais provável, acho eu, é que Marina libere seus eleitores para votar como bem entenderem. No mínimo.
Uma outra leitura do Datafolha é a seguinte: mesmo com a toda a exposição na mídia, diariamente ao lado de Lula em eventos pelo país, Dilma Roussef não decola. 16% é muito pouco diante dos 30% naturais do PT. E a transferência da popularidade recorde de Lula não é automática, como comprovou Marta Suplicy na eleição municipal de 2008.
Enfim, o jogo está aberto. Ainda é muito cedo para qualquer prognóstico, muito menos para comparações com 2002. Mas não consigo, hoje, imaginar candidatura da situação mais competitiva que a de Ciro Gomes. Dilma mais parece um fardo a carregar do que um trunfo para o governo.
E agora uma discordância mais subjetiva: não consigo visualizar esse cenário “esquerda X Serra” em 2010.
De esquerda, de esquerda mesmo, só Heloísa Helena, Marina Silva e, vá lá, Ciro Gomes. Dilma não é de esquerda nem aqui nem na China nem em lugar nenhum. No máximo, é centro-esquerda, como Serra. E estou sendo MUITO bondoso, viu?
O tucano, por sua vez, também pode conquistar uns votinhos no campo da esquerda, vide apoio do PPS.
Até porque, convenhamos, o PSDB não vai apresentar agora nenhum Alckmin da vida, como em 2006.
E daí? Não tinha assunto melhor não?