Os amiguinhos dos jornalistas de cultura

Uma pesquisadora desenvolveu uma tese de mestrado sobre crítica literária nos jornais paulistanos há algumas décadas. Diz ela que até o surgimento da USP, em 1934, esse trabalho foi feito basicamente por intelectuais que se tornariam professores universitários. Depois disso, a labuta passou a ser dividida com advogados em busca de um troco a mais, médicos fãs de poesia e historiadores engajados. O nível caiu. Até que o golpe militar de 1964 feriu de morte e afastou todo esse povo da imprensa. No lugar, gente inexperiente – oriunda das recém criadas faculdades de jornalismo. Talvez isso ajude a explicar a baixa qualidade do jornalismo cultural na cidade, visível principalmente no relacionamento dos repórteres dessa área com suas fontes. Afinal, quem fala mal de amigo ególatra? Ninguém.

Há poucas semanas o colega Maurício Stycer, professor e jornalista renomado, escreveu em seu blog um texto sobre o dramaturgo Mário Bortolotto. A postagem era curta, mas feriu o microcosmo do teatro alternativo de São Paulo porque em vez defendê-lo relatou jornalisticamente, sem tom de denúncia, o trabalho de investigação sobre a tentativa de assassinato do artista local. Como referência foi usada uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, escrita por um repórter que não é amigo de Bortolotto. Isso bastou para que o artista escrevesse em seu espaço na Internet um texto refutando as suspeitas levantadas pela polícia e, com uma dose de confusão, acusando o blogueiro de tentar se vingar dele, supostamente porque se recusou a dar uma entrevista.

Foi aí que li uma frase que me chamou a atenção. “O Estadão tem dois jornalistas que são meus amigos e para quem eu jamais recusaria qualquer declaração”, escreveu.

Curioso.

Eu trabalho com política há cinco anos. O que aconteceria comigo se o petista Aloizio Mercadante ou o tucano Arthur Virgílio dissessem que são meus amigos? E se o presidente da República elogiasse meu trabalho diante de outras pessoas? E se um jornalista de economia admitir que é amigo de Abílio Diniz ou da família Setúbal? E se todos fôssemos beber juntos em um evento público? E me confessassem que o mensalão rolou bonito, que a empresa adultera balanços, que os resultados do ano serão piores que o previsto?

Mas em cultura pode. É bonito ser amigo de artista. Como se eles não se metessem com política e economia. Como se eles não tivessem interesses a defender. Como se eles não fossem capazes de mentir. Como se eles fizessem um trabalho cuja relevância é inquestionável. Como se fossem fundamentais para o próprio jornal manter seu público.

Se eu fosse um dos jornalistas citados por Bortolotto, escreveria um texto refutando a amizade. Nada menos profissional do que redigir para um veículo de mídia sobre um amigo seu. O que em outros ramos é comprometimento inaceitável, no jornalismo cultural vira bagagem, repertório e agenda. Nem no jornalismo esportivo, tão criticado por comprometimento dos repórteres com seus clubes, há relação tão promíscua.

No fim das contas o dramaturgo mira em uma coisa e acerta em outra: ao mesmo tempo em que critica a mídia nada alternativa, que ajuda a divulgar seu trabalho, ele estreita vínculos com repórteres que supostamente deveriam se esforçar para julgar sua obra com mais distância. Isso nada tem a ver com jornalismo. Se os próprios jornalistas não condenarem esse tipo de postura, será ainda mais difícil que o ramo cultural, que no começo do século chamava pessoas para as bancas, mereça respeito dos seus leitores. Hoje, com poucas exceções, não merece dos leitores e muito menos dos colegas de ofício.

Cuidados com o programa de direitos humanos

Jarbas Passarinho foi um dos piores ministros da história do Brasil. Mandou “às favas os escrúpulos de consciência” quando a ditadura brasileira se aprofundou em 1968. É um dos arquitetos, na pasta da Educação, deste país analfabeto funcional que temos hoje. Mas guardei uma boa frase dele, dita em entrevista pouco após a vitória do presidente Lula em 2002. Serve para mostrar que na alta cúpula do regime não havia apenas o simplismo de “somos nós contra esses vagabundos comunistas”.

“O principal problema dos nossos adversários é que eles se achavam mais patriotas do que nós. Aquilo era uma guerra. Mas era gente que amava o Brasil de um lado e gente que amava o Brasil do outro”, disse ele. Me recordei disso ao ler sobre a tardia discussão do programa nacional de direitos humanos, chancelado por petistas e tucanos. Sabendo que do outro lado há gente tão patriota quanto você, o que raios lhe dá direito de se apropriar do Estado e cometer crimes pelos quais qualquer preso atual é sodomizado pelos colegas? Ou de perpetrar violações previstas pela Convenção de Genebra?

O fato de ter sido uma guerra e de haver patriotas dos dois lados não autoriza os vencedores a estuprar as mulheres vencidas. Tampouco legitima tortura, método tão desumano quanto impreciso para se recolher evidências de qualquer coisa. Muito menos autoriza assassinatos sumários de inocentes – nem o de culpados em um país sem pena de morte prevista em lei.

Vários vizinhos com ditaduras ainda mais brutais do que a brasileira já fizeram essa revisão. E membros das próprias forças armadas desses países não chancelaram crimes cometidos por seus antecessores. Por que no Brasil isso seria simples revanchismo? Por acaso o coronel Brilhante Ustra é a favor do estupro? Ou acha tortura um método humano e eficiente para extrair informações?

Os patriotas militares que em posições de comando exacerbaram essas premissas merecem ser responsabilizados por crimes que só estavam esquecidos para quem bateu, não para quem apanhou da mão forte e do braço amigo das Forças Armadas. Vá lá que tenha sido uma guerra, mas guerras também têm regras. Uma coisa é confronto – de um lado e do outro imagino que as pessoas soubessem que poderiam morrer a qualquer momento. Outra é abuso. Estuprar mulheres nunca fez parte de nenhum manual sobre como vencer uma batalha. Torturar desde aquela época é visto mais como um meio de humilhar o adversário do que de extrair confissões pouquíssimo confiáveis.

Esses são crimes sem prescrição para patriotas de um lado e do outro. Mas ao que consta não houve rebelde contra a ditadura que aplicasse nos militares os mesmos métodos dos quais foi vítima. Risco maior do que o do revanchismo é o da dissimulação.

Paulo Henrique Amorim, monopolista da esquerda e ex-PIG

O ex-jornalista Paulo Henrique Amorim (PT-RJ) gosta de apontar para a mídia e acusar colegas que nunca viu de serem pagos pelo PSDB, pelo presidente do Supremo, pelo Inri-Cristo, por qualquer um que não comungue das suas confusas teses sobre jornalismo e sobre o que é ser esquerdista no Brasil.

Compartilho então dois textos libertados pela Folha de S.Paulo nos últimos dias. Ambos de setembro de 1994.

O primeiro, da colunista Joyce Pascowitch:

Campainha
A princípio ele viraria um tipo de George Stephanopoulos, que fez o mesmo na campanha de Bill Clinton.
Mas Paulo Henrique Amorim acabou não vingando para ser porta-voz da campanha de Fernando Henrique Cardoso –mesmo porque a função não chegou a existir.

Seu nome continua na roda para o Planalto.
O de Carlos Monforte chegou a ser cogitado –e não foi totalmente descartado.
Nem o de uma mulher.”

Para assinantes do UOL e da Folha

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/9/21/ilustrada/3.html

O segundo:

“FHC ataca imprensa e diz que uso ilegal de verba pública é “fofoca”

FERNANDO DE BARROS E SILVA
O candidato tucano Fernando Henrique Cardoso voltou ontem a atacar a imprensa. Em Ribeirão Preto (319 km ao norte de São Paulo), FHC atribuiu a “fofocas” a revelação da Folha de que o governo do Ceará gastou dinheiro público na convenção que homologou sua candidatura.
“Não vou responder essas coisas mais, não. Chega”, afirmou. “Pergunte ao Ciro Gomes. Eu não tenho nada a ver com isso”.
O tucano ficou mais contrariado ainda quando a Folha lembrou que o gasto –US$ 6.700– foi feito por um governador do seu partido: “Levante o nível da Folha”.
Na última terça-feira, ao ser abordado sobre o uso da máquina do governo federal em sua campanha, FHC afirmou que a imprensa “deseduca” o eleitorado.
Ontem, em Ribeirão, FHC fez uma carreata pelas ruas principais da cidade, em cima de uma caminhonete, ao lado do deputado José Serra, candidato do PSDB paulista ao Senado, e do prefeito Waldir Trigo (PSDB), de Sertãozinho.
Ribeirão é administrada pelo PT. Foi fraca a recepção ao candidato. Houve queima de fogos em várias ruas, além de distribuição de bandeiras.
FHC não deu maior importância ao provável benefício à sua candidatura decorrente do acordo anunciado por empresários para controlar preços até dezembro.
“Você não acha que é boa a baixa dos preços?”, indagou: “Se a baixa de preços é boa para a minha candidatura e boa para o Brasil, o que é que eu vou fazer?”.
Em Campinas (100 km a noroeste de SP), onde participou de outra carreata, FHC disse que o uso eleitoral da máquina do governo é parte da “cultura brasileira”.
“É preciso ir modificando isso progressivamente. Eu sou contra, mas lá sei o que um fez ou o outro faz. Isso é da cultura brasileira.”
“Estão procurando agulha no palheiro porque não têm como criticar o plano. Querem ganhar no tapetão”, disse.
Ontem à noite, FHC fez um comício em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, no Rio. Segundo a PM, havia cerca de 2.500 pessoas. O comício foi organizado pelo senador Hideckel Freitas, do PPR.
Porta-voz
O correspondente da TV Globo em Nova York, Paulo Henrique Amorim, disse ontem à Folha que recusou o convite para ser porta-voz de FHC, se eleito.
Em entrevista por telefone, de Nova York, Amorim confirmou que foi convidado há aproximadamente dois meses, na época da crise que resultou na saída do então candidato a vice de FHC, Guilherme Palmeira.
Ele disse que recusou o cargo porque está “muito bem” como correspondente da TV Globo.”

Para assinantes do UOL e da Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/9/10/caderno_especial/27.html

Ser procurado por aquele que viria a ser presidente não condena ninguém. Mas tampouco parece que um debate desse tipo – ser ou não ser porta-voz – chegaria aos jornais se o mocinho não tivesse mínima simpatia por FHC. Ah, mas no governo dele foi tudo diferente do que esperávamos, pode dizer ele.

Pode ser. O fato é que a simpatia estava lá. E que em 1994 PHA não achava que Lula é maior do que o Brasil, como escreveu outro dia em seu site.

Paulinho, tu é falso que nem nota de três real.

A blogosfera petista que tem complexo de motoboy

Há alguns anos uma amiga estava parada no trânsito da Marginal Pinheiros às 19h. Chovia. Eis que um motoboy apressado não consegue frear, aquaplana e se arrebenta na traseira do carro. Lamentavelmente morreria horas depois no hospital. Mas não sem que seus colegas de ofício, ainda com o corpo do rapaz no asfalto, rodeassem a moça de 1,60 m de altura para pressioná-la a assumir responsabilidade que não teve pelo acidente. Afinal, devem ter pensado, ela tinha um carro razoável e a culpa não pode ser do mais fraco. Nunca.

Na delegacia, duas horas mais tarde, o delegado nota que ali estavam dois tipos de motoboys para reforçar a acusação. Uns queriam vingança contra todos os motoristas do mundo, personificados nela. Outros estavam interessados em achacar a jovem, fazê-la pagar indenização à família e a arcar com despesas que nada tinham a ver com a tragédia. Conseguiram apenas incomodá-la com ataques sem sentido. Não colou.

Com efeitos menos letais, é isso que acontece com a parte sem inteligência da blogosfera petista na Internet. Enquanto a parte boa, com eventuais exageros e omissões, produz conhecimento e debates importantes, a parte ruim se limita a reforçar um ranço autoritário e perigoso para a democracia na Internet, porque confunde liberdade de expressão com liberdade de agressão. Enquanto a parte boa sabe que não sobrevive se alimentando das mesmas ideias, conversa com gente de outros partidos e sabe a importância que tem, a parte ruim só consegue ser auto-referente, porque tem dificuldade de raciocínio para lidar com um mundo complexo e que não é todo seu. Coitados.

Escrevi esse longo intróito para contar que no último mês de 2009 aconteceu algo parecido comigo, quando um motoboy virtual acertou meu veículo parado na web, me culpou pelo acidente, cobrou indenização e, diante da recusa, gritou pedindo a ajuda de uma turma de aloprados para me pressionar. Como no caso da minha amiga, o tempo se encarregará de condenar esse tipo de gente que ataca para defender o espírito de corpo. E que em nome de ideais ditos nobres comete grandes atrocidades. Comigo não colou.

Traduzindo em fatos: um senhor foi ao meu blog para me acusar de ter entrado em seu espaço na Internet para xingá-lo. Por quê? Porque o blogueiro criticou um texto jornalístico meu. Em sua lógica tacanha, um repórter criticado por seu trabalho sai pela web para revidar. O dono dessa mente fértil, sobre quem nunca tinha ouvido falar, acha que faço isso.

O argumento? Assim agem todos os que trabalham em veículos que as pessoas lêem – os boicotados pelo puxa-saco mor e ex-jornalista Paulo Henrique Amorim. (Esse modelo do meu acusador é o que joga no lixo a liberdade de imprensa para, sem provas, acusar gente honesta de se vender para tucanos, para o presidente do STF e por aí vai. Conheço duas pessoas nessa situação e uma já venceu a primeira na Justiça. A outra desistiu de processá-lo porque é uma moça generosa. Mesmo ofendida, perdoou.)

Enfim. A prova de que xinguei o rapaz? A identificação digital mostra que é de São Paulo o anônimo que fez o suposto comentário – não publicado, obviamente. E que o comentarista chegou a seu site bobinho depois de uma busca com o meu nome. Como sou um jornalista irrelevante, sempre de acordo com nosso elementar Watson, só eu faria isso. Mesmo escrevendo sobre política há cinco anos, agora no site mais acessado do país e em uma cidade com mais de 10 milhões de pessoas. Conclusão de gênio do mistério.

Mesmo assim, diante desses argumentos e de outros que também pesariam para pessoas razoáveis, o blogueiro escreveu um texto digno de 5ª série, com meu nome e minha foto, me acusando de racismo, de ser corrupto e ainda com ameaças de agressão. Brincadeira de criança.

Quando cobrado a provar seus ataques, judicialmente se eu achar melhor, o blogueiro apelou à liberdade de expressão que não sabe usar, assim como milhares de investigados na delegacia de crimes virtuais. Seus colegas da parte abestalhada do petismo online – da qual felizmente não fazem parte pessoas a quem respeito – repetiram, com menos talento, aquilo que criticam na mídia que tanto detestam: foram correia de transmissão de um pensamento estúpido só porque o mensageiro compartilha da mesma estupidez.

Espero que um dia se corrijam, como cobram da mídia que chamam de golpista. Mesma mídia que na cabeça desses desconhecidos eu represento – e, seguindo essa lógica torta, me torna merecedor de agressões infundadas.

Mas tudo bem. Eles não se desculparão e terei de confiar apenas no preceito de que a democracia demora, mas dá o tratamento merecido.

No primeiro post deste ano eleitoral, meu caso ajuda a lembrar que está por vir uma série de ataques de gente comprometida apenas consigo mesma ao trabalho jornalístico no Brasil. Por mais que a mídia tenha defeitos e que cometa exageros e omissões muitas vezes injustificáveis, haverá muita gente interessada em censurar material de reportagem por razões partidárias. Assim como haverá gente que fará agressões travestidas de opinião.

A blogosfera ruim dos petistas é mais organizada que a blogosfera ruim dos tucanos, mas ambas sofrem da mesma doença infantil que leva ao complexo de motoboy. Enquanto uma é intolerante com a imprensa, como se não houvesse amanhã, a outra não percebe que o governo do presidente Lula é popular porque é o melhor desde a redemocratização. Ambas se unem apenas para negar os próprios mensalões e defender a intransigência com o outro lado. São primatas e não as leio. Nunca.

Mas acho que quem se esforça para entender o fenômeno da blogosfera não pode simplesmente calar. Blogosfera surgiu para provocar debates e difundir ideias, e não para ganhar no grito. Eu sempre opto por falar. Porque eles não vão ganhar.

Os motoboys de verdade ainda colocam em risco o emprego e a própria vida para serem instigados a tanto instinto de sobrevivência. Os irresponsáveis virtuais jogam apenas com o prestígio que mal chegam a ter. Uns bobocas.

O fator Kassab nas eleições 2010

Esqueça a gestão da crise das chuvas em São Paulo. Das que vieram e das que virão. Leve em conta que no Orçamento da capital paulista em 2010 estarão destinados cerca de R$ 25 milhões para lidar com esse problema, enquanto recordes R$ 125 milhões irão para propaganda. Isso tem um óbvio efeito sobre a percepção da população. E é aí que o prefeito Gilberto Kassab, do quase extinto DEM, pode interferir na eleição presidencial.

Na convenção do PMDB de São Paulo comentava-se à boca pequena. Mas a avaliação já chegou a Brasília e aos outros partidos: Kassab pode ser o candidato confiável de que o governador José Serra precisa para ser presidenciável sem deixar no lugar um adversário interno como Geraldo Alckmin, ex-governador e favorito nas pesquisas.

É fato que Serra teve de engolir Alckmin como seu secretário do Desenvolvimento, mas com sua bancada de deputados estaduais e federais o ex-governador tem aliados importantes no partido. Não serão desprezados. Ao mesmo tempo, o candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2006 sabe que voltar ao Palácio dos Bandeirantes não dará a ele mais visibilidade do que já teve. Poderá fazer isso – teimoso que é – apesar do risco de ser ainda mais visto como um político paulista. Pro resto do Brasil isso não pega bem.

O movimento em favor de Kassab ocorreria com anuência do próprio Alckmin e do presidente do PMDB paulista, Orestes Quércia. Com o prefeito demo candidato ao governo, Alckmin seria levado a se candidatar ao Senado. Quércia, que fechou acordo com os tucanos exatamente por causa dessa vaga – incertíssima para um político cada vez menos popular como ele – estaria satisfeito em herdar a Prefeitura de São Paulo, cuja vice, Alda Marco Antônio, é sua fiel aliada. O círculo fecha.

Falta combinar com o chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, preferido de Serra para concorrer ao governo, mas cujo desempenho nas pesquisas não passa de 5%. A compensação poderia ser um cargo importante caso o governador paulista vença as eleições presidenciais – cujo futuro parece cada vez mais turvo. Um 2010 divertido nos espera. Até lá!

O jornalismo ainda é importante

Sempre haverá ditabrandas, fichas falsas pegas na internet e meninos do MEP a lamentar. Mas ao ver o nível dos críticos da mídia brasileira sinto um tremendo sono. Não há um argumento novo, uma iniciativa despida de ranço nem algum conhecimento de como as redações funcionam – exceto por ex-funcionários da Globo que, desprezados, caem no limbo edirmacediano da Record. Diante disso, só consigo concluir que estamos condenados a confiar no jornalismo. Isso é inexorável.

É verdade que no Brasil pouca gente lê e a maioria só pode acreditar naquilo que passa na TV. Por isso mesmo o jornalismo é tão necessário: na pequena parte consumidora de mídia, é a imprensa livre que nos salva do exército de puxa-sacos alucinados do nível de Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo que há por aí. Eles têm seguidores e desprezá-los é um erro. Precisam ser respondidos à altura porque nos ameaçam com as trevas das suas convicções mal postas. E não têm compromisso com sua consciência nem com a dos outros: são aliados do Fla-Flu imbecil e fácil que os embala todos os dias.

Por mais que os playboys donos de veículos de imprensa tomem más decisões que arrisquem a credibilidade dos seus funcionários, os jornalistas são condenados a serem livres e pensar sobre o assunto – ao contrário da gente fraca que vê nos profissionais da área os defeitos que carrega em si – aproveitadores, desarrazoados, partidários, panfletários, egoístas, autoritários, picaretas e vagabundos. Sou uma pessoa mais feliz pelo fato de que esses daí não mandam nada no mundo. Mandam nadinha, mas fazem barulho.

Certamente há pessoas com esses defeitos na mídia. E que fazem seus veículos portarem mensagens ruins e contestáveis. Mas são reduzida minoria. E a maioria que se esforça para ser honesta e razoável me faz acreditar que por mais alto que eles gritem, o jornalismo resistirá para desmontar mensalões, divulgar notas na meia e mostrar o descaso das autoridades em meio às chuvas. Os que pensam que os jornalistas têm de ser bons (com eles), e não livres vão perder essa. Mesmo que esses fãs do obscurantismo não gostem, nosso trabalho ainda é importante e vocês vão ter que nos engolir. Ah, se vão.

DEM é menos mensaleiro que os outros

Não há como fazer concessão nisso: enquanto os dois partidos que se dizem mais ideológicos no Brasil, PT e PSDB, pouparam seus figurões dos respectivos escândalos de compra de apoio com dinheiro de caixa dois, o Democratas, apenas um arremedo do caquético PFL até pouco tempo atrás, vai botar para fora seu único governador. Não é pouco.

É verdade que as imagens do Panetonegate são tão pornográficas que pouco poderia fazer o partido para poupar seus mensaleiros. Mas o fato é que não os está poupando. E ainda promete tirar a legenda do governador José Roberto Arruda, seu vice, Paulo Octávio e outros envolvidos a um ano da eleição – o que, na prática, não apenas os impede de concorrer à reeleição, mas também os entrega à Justiça comum, uma vez que perdem o foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF).

No seu pecado original, os petistas se limitaram a expulsar o ex-tesoureiro Delúbio Soares e pressionar pela saída de outros membros da cúpula acusada de envolvimento no mensalão, como o ex-presidente José Genoino, o ex-secretário-geral Silvio Pereira e o ex-secretário de comunicação Marcelo Sereno.

O PSDB foi ainda pior: nadíssima fez, poupando o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo e o ex-ministro Pimenta da Veiga, atribuindo toda a responsabilidade ao empresário e bode expiatório número 1, Marcos Valério, pivô do maior escândalo do governo Lula.

Nas eleições de 2010, PT, PSDB e DEM terão no currículo um mensalão. A diferença, latente nas declarações de líderes e na pressão para que Arruda deixe o partido, é que os mensaleiros do Democratas devem ganhar um pontapé nos fundilhos, e não abraços de solidariedade. Pelo menos no quesito mensalão, o DEM tem mais autoridade moral para falar.

Top 10 Uniban Facts

10 – Os alunos da Uniban cogitaram fundar uma banda de forró chamada “Burquinha Preta” para competir com o “Calcinha Preta”.

9 – Uma aluna conseguiu ser reprovada no vestibular da Uniban só por causa do nome. Chama-se Kátia Flávia.

8 – Vagner Love só ganhou o apelido depois que saiu da Uniban. Antes era Vagner Not Very Sensual.

7 – A ideia de fundar a Uniban foi do coronel Erasmo Dias. Mas ele não teve coragem de ir até o fim.

6 – Representantes dos amish vieram ao Brasil para conhecer a Uniban e acharam o povo muito quadrado pro gosto deles.

5 – Vicentinho nunca terminou seu curso na Uniban. Na verdade foi expulso antes de concluir aos gritos de “FA-NHO! FA-NHO!”

4 – A Uniban concede anualmente o Prêmio Wagner Montes de Direitos Humanos.

3 – José Mayer um dia apareceu na Uniban com camisa regata. Foi enxotado aos gritos de “pu-ta, pu-ta, pu-ta!”

2 – 1ª falta grave: advertência. 2ª falta grave: suspensão. 3ª falta grave: ablação do clitóris.

1 – Na entrada da Uniban há uma trena na parede e uma marca quase no chão. Ali está escrito “Sua saia deve ir até aqui para você entrar neste brinquedo”.

O poder da televisão

Duas da tarde de uma sexta-feira pré-eleitoral na província rebelde do Uruguai. Almoço numa mesa à beira da janela de um restaurante do centro de Montevidéu e vejo um rapaz vestido de Zorro, parado como uma pedra. Ele espera donativos. Ninguém dá ni pelota. É só um otário fantasiado, brandindo uma espada inofensiva e à espera do fim do dia.

Mas sua sorte acabou mudando.

Um doido surge com máscara de Homem Aranha e roupas comuns. Seu objetivo é desconcentrar o Zorro, fazê-lo rir. Assume posição de cócoras, abre as mãos como se estivesse jogando uma teia e se coloca ao lado do otário inicial. Depois de uns três minutos, o falso herói não aguenta e ri do maluco que acabara de aparecer. Rio também.

No fim das contas, era tudo uma armação de um programa de TV que promove pegadinhas inofensivas por aí – não as apoio, sempre preferi o humor agressivo nível Ivo Holanda.

Mas isso já basta para o Zorro de brincadeira desistir por alguns momentos da posição ridícula, botar banca e descontraidamente bater papo com o humorista Homem Aranha, o câmara e toda a equipe da TV que ali estava.

Ele era só um idiota qualquer. Agora não: ele é o idiota que estará na televisão. E saberá aproveitar cada segundo da presença da equipe da pegadinha ao seu lado.

Foi por isso que brotaram admiradores do Zorro de pedra. Crianças pedindo para tirar fotos com ele. Por uns tantos minutos, pessoas deixaram moedas em sua caixinha. As mocinhas já paravam para assisti-lo enquanto o câmera o filmava ao lado do humorista.

Até que a equipe da TV termina o trabalho e vai embora.

Não passam dois minutos para ele voltar a ser apenas o Zorro idiota que estava parado no meio da rua. Ninguém o quer mais. Ele seguirá lá, impassivo, até o fim do dia se precisar.

Talvez tudo volte ao anormal quando o programa finalmente passar na TV.

O site da Record é contra o conhecimento

Uma boa fonte me contou que o site R7 não aceita reportagens sobre evolução e que as deleta do índice de notícias quando elas aparecem. Já tiraram uma dessas da capa do site porque tratava de um esqueleto de tempos imemoriais que não são contemplados pela bíblia do senhor Edir Macedo, dono de um império de comunicação e de uma igreja também.

Pouco me interessa o que essa pessoa pensa sobre o surgimento do mundo. E nem sequer condeno que ele e seus discípulos prestem serviços à choldra, que lhes compensa com generosidades pecuniárias mil.

Me interessa mais o que pensam os jornalistas que lá trabalham. São criacionistas? Precisam ser para trabalhar lá? Acham normal tomar uma medida desse tipo mesmo sem uma justificativa razoável?

Falar sobre evolução humana não é uma questão de ideologia. Não é equivalente a fazer campanha contra nem a favor de nada. Não é o mesmo que defender interesses, lícita ou ilicitamente. Ocultar reportagens sobre esse assunto é uma censura inaceitável e que serve apenas para promover a ignorância. Isso não condiz com o jornalismo, que existe para promover o conhecimento, e não o obscurantismo.

Ao tomar esse tipo de atitude para contentar os criacionistas antiquados da Igreja Universal do Reino de Deus, dona do site R7, os jornalistas que ali estão precisam refletir sobre se estão iluminando ou apenas servindo ao patrão que paga em dia. Se acham a atitude comum, o que mais estariam dispostos a censurar? Melhor nem especular.

Imagino que quem teve de tirar essas reportagens do ar sinta uma grande vergonha. Mas não sinto pena desse pobre coitado – se é que não foram vários. Espero que as pessoas que ali trabalham e são submetidas a essas diretrizes reflitam melhor se apenas se dizem jornalistas ou se, mais do que isso, realmente fazem jornalismo.

Eu posso dizer: nunca faria isso. Até porque o criacionismo me enoja.

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