Os amiguinhos dos jornalistas de cultura
Uma pesquisadora desenvolveu uma tese de mestrado sobre crítica literária nos jornais paulistanos há algumas décadas. Diz ela que até o surgimento da USP, em 1934, esse trabalho foi feito basicamente por intelectuais que se tornariam professores universitários. Depois disso, a labuta passou a ser dividida com advogados em busca de um troco a mais, médicos fãs de poesia e historiadores engajados. O nível caiu. Até que o golpe militar de 1964 feriu de morte e afastou todo esse povo da imprensa. No lugar, gente inexperiente – oriunda das recém criadas faculdades de jornalismo. Talvez isso ajude a explicar a baixa qualidade do jornalismo cultural na cidade, visível principalmente no relacionamento dos repórteres dessa área com suas fontes. Afinal, quem fala mal de amigo ególatra? Ninguém.
Há poucas semanas o colega Maurício Stycer, professor e jornalista renomado, escreveu em seu blog um texto sobre o dramaturgo Mário Bortolotto. A postagem era curta, mas feriu o microcosmo do teatro alternativo de São Paulo porque em vez defendê-lo relatou jornalisticamente, sem tom de denúncia, o trabalho de investigação sobre a tentativa de assassinato do artista local. Como referência foi usada uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, escrita por um repórter que não é amigo de Bortolotto. Isso bastou para que o artista escrevesse em seu espaço na Internet um texto refutando as suspeitas levantadas pela polícia e, com uma dose de confusão, acusando o blogueiro de tentar se vingar dele, supostamente porque se recusou a dar uma entrevista.
Foi aí que li uma frase que me chamou a atenção. “O Estadão tem dois jornalistas que são meus amigos e para quem eu jamais recusaria qualquer declaração”, escreveu.
Curioso.
Eu trabalho com política há cinco anos. O que aconteceria comigo se o petista Aloizio Mercadante ou o tucano Arthur Virgílio dissessem que são meus amigos? E se o presidente da República elogiasse meu trabalho diante de outras pessoas? E se um jornalista de economia admitir que é amigo de Abílio Diniz ou da família Setúbal? E se todos fôssemos beber juntos em um evento público? E me confessassem que o mensalão rolou bonito, que a empresa adultera balanços, que os resultados do ano serão piores que o previsto?
Mas em cultura pode. É bonito ser amigo de artista. Como se eles não se metessem com política e economia. Como se eles não tivessem interesses a defender. Como se eles não fossem capazes de mentir. Como se eles fizessem um trabalho cuja relevância é inquestionável. Como se fossem fundamentais para o próprio jornal manter seu público.
Se eu fosse um dos jornalistas citados por Bortolotto, escreveria um texto refutando a amizade. Nada menos profissional do que redigir para um veículo de mídia sobre um amigo seu. O que em outros ramos é comprometimento inaceitável, no jornalismo cultural vira bagagem, repertório e agenda. Nem no jornalismo esportivo, tão criticado por comprometimento dos repórteres com seus clubes, há relação tão promíscua.
No fim das contas o dramaturgo mira em uma coisa e acerta em outra: ao mesmo tempo em que critica a mídia nada alternativa, que ajuda a divulgar seu trabalho, ele estreita vínculos com repórteres que supostamente deveriam se esforçar para julgar sua obra com mais distância. Isso nada tem a ver com jornalismo. Se os próprios jornalistas não condenarem esse tipo de postura, será ainda mais difícil que o ramo cultural, que no começo do século chamava pessoas para as bancas, mereça respeito dos seus leitores. Hoje, com poucas exceções, não merece dos leitores e muito menos dos colegas de ofício.