Lula, o melhor presidente conservador do Brasil
Nunca antes na história deste país um presidente tinha tão ridiculamente dado a si mesmo o monopólio do coração na governança. Tampouco vivemos em outro momento uma gestão com tamanho apelo popular e com uma oposição tão fora de sintonia com o Brasil real. Apesar dos muitos excessos e com a ajuda da conjuntura política, Luiz Inácio Lula da Silva terminou em 1º de janeiro de 2011 a melhor administração que nós brasileiros tivemos. Entre todos os mandatários conservadores que tivemos, foi o que melhor soube encontrar atalhos para atender os pobres. E nada é mais importante que isso.
Como já há muitos blogueiros ganhando bem para falar bem e outros ganhando bem para falar mal, meu epitáfio do governo Lula fica no lamento pela falta de determinação de fazer mudanças sólidas na política e na economia brasileiras – quem não muda no centro da política e no coração da economia nunca deixará de ser um conservador. Do alto de sua popularidade de quase 90%, o ex-líder sindical poderia ter melhorado os costumes da nossa democracia ainda tacanha e enfrentado interesses econômicos poderosos que ajudam a travar um desenvolvimento mais acelerado. Nunca esteve perto de fazê-lo.
Lula preferiu colocar o apoio parlamentar no topo da agenda. Nenhuma demanda, nem dos mais ricos, ficou acima disso. A tentativa de um governo menos conservador só durou até o mensalão. Dali em diante, o protagonismo veio para quem mancharia a biografia do ex-líder sindical com o seu apoio: Fernando Collor, Renan Calheiros, José Sarney, Blairo Maggi, Ivo Cassol, Paulo Maluf… Nada mais conservador do que atender os interesses de quem sempre foi atendido e foi isso que o agora ex-presidente fez por seis longos anos.
Na economia, o que há de progressista em manter o país com a taxa de juros mais alta do mundo? Houve oito anos para sairmos desse patamar e lá continuamos. Tudo bem, Lula apostou no mercado interno em 2008, após a crise internacional, e essa escolha se mostrou correta – o conservador Fernando Henrique Cardoso teria apertado os cintos e metido o país na paralisia por pelo menos um ano. Mas essa ação foi sustentada em cortes de impostos para a indústria, não no alívio do fardo tributário do contribuinte comum ou do aumento salarial com mais vigor. As centrais sindicais nem chiaram porque se focaram nos empregos industriais estimulados, ainda que a renda não disparasse. Nada de vanguarda nisso.
Nenhum desses fatos foi grande surpresa para quem, como eu, votou em Lula em 2002 mais interessado na Carta de Ribeirão Preto – e os compromissos com a estabilidade – do que na trajetória do retirante que fundou um partido ônibus de esquerda, com gente de todo tipo. Ainda assim, nem o mais pragmático dos eleitores naquela quarta tentativa imaginou que o presidente seria tão quadrado no governo.
A ousadia de Lula na Presidência foi quase sempre verbal, com raras medidas que realmente foram feitas para desagradar detentores de privilégios históricos. Como não achar conservador quem nunca discutiu a sério, em dois mandatos, um imposto importante sobre heranças milionárias? Como dizer que é progressista dar estradas para que concessionárias as explorem de graça por anos? Essas não são questões menores – são valores básicos para qualquer administração que num país como o nosso se pretenda progressista.
Exemplo disso Lula teve em seu próprio partido. A prefeitura de Marta Suplicy em São Paulo enfrentou perueiros e donos de linhas de ônibus – uma máfia das mais pesadas – enquanto Lula colocou membros do PR para lidar com o setor de transportes. Parece uma diferença bem importante e uma linha divisória razoável entre um governo que confronta interesses e outro que busca uma acomodação impossível e mal ajeitada.
Ainda que tenha sido um bom começo para a montagem de uma nação mais harmônica e que tenha sido o melhor governo do Brasil, foi pouco diante do que o país precisa. Certamente foi mais do que a gestão de Fernando Henrique, que urra de prazer e se cobre de glórias por ter trazido uma estabilidade econômica que, no fim das contas, estava mais do que latente: até a Bolívia já conseguiu esse negócio.
No lado pessoal, como não gostar de Lula? Há oito anos eu estava no meio do povão na Praça dos Três Poderes, aplaudindo a transição da faixa presidencial. No primeiro dia deste ano, tive o privilégio de ver de dentro do Palácio do Planalto a presidenta Dilma Rousseff subir a rampa para encontrar seu mentor. A despedida do metalúrgico comoveu muita gente não só pela simpatia lulesca, mas também por sucessos do seu governo. Lindas imagens para a televisão. Mas para a história, um governo progressista e menos pop star teria valido mais.