Lula, o melhor presidente conservador do Brasil

Nunca antes na história deste país um presidente tinha tão ridiculamente dado a si mesmo o monopólio do coração na governança. Tampouco vivemos em outro momento uma gestão com tamanho apelo popular e com uma oposição tão fora de sintonia com o Brasil real. Apesar dos muitos excessos e com a ajuda da conjuntura política, Luiz Inácio Lula da Silva terminou em 1º de janeiro de 2011 a melhor administração que nós brasileiros tivemos. Entre todos os mandatários conservadores que tivemos, foi o que melhor soube encontrar atalhos para atender os pobres. E nada é mais importante que isso.

Como já há muitos blogueiros ganhando bem para falar bem e outros ganhando bem para falar mal, meu epitáfio do governo Lula fica no lamento pela falta de determinação de fazer mudanças sólidas na política e na economia brasileiras – quem não muda no centro da política e no coração da economia nunca deixará de ser um conservador. Do alto de sua popularidade de quase 90%, o ex-líder sindical poderia ter melhorado os costumes da nossa democracia ainda tacanha e enfrentado interesses econômicos poderosos que ajudam a travar um desenvolvimento mais acelerado. Nunca esteve perto de fazê-lo.

Lula preferiu colocar o apoio parlamentar no topo da agenda. Nenhuma demanda, nem dos mais ricos, ficou acima disso. A tentativa de um governo menos conservador só durou até o mensalão. Dali em diante, o protagonismo veio para quem mancharia a biografia do ex-líder sindical com o seu apoio: Fernando Collor, Renan Calheiros, José Sarney, Blairo Maggi, Ivo Cassol, Paulo Maluf… Nada mais conservador do que atender os interesses de quem sempre foi atendido e foi isso que o agora ex-presidente fez por seis longos anos.

Na economia, o que há de progressista em manter o país com a taxa de juros mais alta do mundo? Houve oito anos para sairmos desse patamar e lá continuamos. Tudo bem, Lula apostou no mercado interno em 2008, após a crise internacional, e essa escolha se mostrou correta – o conservador Fernando Henrique Cardoso teria apertado os cintos e metido o país na paralisia por pelo menos um ano. Mas essa ação foi sustentada em cortes de impostos para a indústria, não no alívio do fardo tributário do contribuinte comum ou do aumento salarial com mais vigor. As centrais sindicais nem chiaram porque se focaram nos empregos industriais estimulados, ainda que a renda não disparasse. Nada de vanguarda nisso.

Nenhum desses fatos foi grande surpresa para quem, como eu, votou em Lula em 2002 mais interessado na Carta de Ribeirão Preto – e os compromissos com a estabilidade – do que na trajetória do retirante que fundou um partido ônibus de esquerda, com gente de todo tipo. Ainda assim, nem o mais pragmático dos eleitores naquela quarta tentativa imaginou que o presidente seria tão quadrado no governo.

A ousadia de Lula na Presidência foi quase sempre verbal, com raras medidas que realmente foram feitas para desagradar detentores de privilégios históricos. Como não achar conservador quem nunca discutiu a sério, em dois mandatos, um imposto importante sobre heranças milionárias? Como dizer que é progressista dar estradas para que concessionárias as explorem de graça por anos? Essas não são questões menores – são valores básicos para qualquer administração que num país como o nosso se pretenda progressista.

Exemplo disso Lula teve em seu próprio partido. A prefeitura de Marta Suplicy em São Paulo enfrentou perueiros e donos de linhas de ônibus – uma máfia das mais pesadas – enquanto Lula colocou membros do PR para lidar com o setor de transportes. Parece uma diferença bem importante e uma linha divisória razoável entre um governo que confronta interesses e outro que busca uma acomodação impossível e mal ajeitada.

Ainda que tenha sido um bom começo para a montagem de uma nação mais harmônica e que tenha sido o melhor governo do Brasil, foi pouco diante do que o país precisa. Certamente foi mais do que a gestão de Fernando Henrique, que urra de prazer e se cobre de glórias por ter trazido uma estabilidade econômica que, no fim das contas, estava mais do que latente: até a Bolívia já conseguiu esse negócio.

No lado pessoal, como não gostar de Lula? Há oito anos eu estava no meio do povão na Praça dos Três Poderes, aplaudindo a transição da faixa presidencial. No primeiro dia deste ano, tive o privilégio de ver de dentro do Palácio do Planalto a presidenta Dilma Rousseff subir a rampa para encontrar seu mentor. A despedida do metalúrgico comoveu muita gente não só pela simpatia lulesca, mas também por sucessos do seu governo. Lindas imagens para a televisão. Mas para a história, um governo progressista e menos pop star teria valido mais.

Dedicado a um gordo babaca no show do Paul McCartney

O show foi um dos mais bacanas que vi. Para mim, fica atrás dos do R.E.M., em São Paulo e no Rock in Rio, e do Radiohead. Mas sobre bons momentos há muitos textos. Vou me ater a uma situação horrorosa na qual me meti na entrada do Morumbi, por causa de um playboy intolerante. Não sei o nome dele, o que faz da vida, nem se é playboy de verdade. Mas a incapacidade desse rapaz de se colocar no meu lugar me ofendeu ao ponto de, pela primeira vez desde que briguei por um lápis amarelo, na sexta série, eu ficar realmente disposto a bater em alguém. Sem medo de ser feliz.

Cheguei ao estádio às 17h30, mas esperei acabar a rodada do Brasileirão para entrar na fila. Os portões estavam abertos desde o momento em que cheguei ao local. A fila já parecia longa na entrada do estádio. Vou caminhando e tenho de dobrar a esquina da avenida que dá a frente para o Morumbi. Já cansado, vejo um fim poucos metros adiante. Paro. Nenhum policiamento, nenhuma confusão. Apenas carros que passam para parar em um estacionamento pouco atrás. Até que chegam mais pessoas.

Olho para trás – a rua é curva e não dá pra ver muito – e reparo que mais gente vem da parte de cima do bairro. Penso ter dado sorte, por ter chegado pouco antes de um montão de pessoas. E ali fico. Um cara com a camisa do Bahia me pergunta se eu estava na fila. Respondo que sim. E ele: “Só se for atrás de mim”. Retruco: “Como assim? Eu vim daqui de baixo e não vi você na minha frente.” Ele insiste, passa com a namorada. Pra ele ouvir, digo que duas pessoas pulando na frente na fila não vão estragar o show.

Dobramos a esquina. Eis que aparece o gordo babaca. Querendo impressionar amigas.

Falo ao telefone com um colega sobre as dificuldades na fila e o rapaz se aproxima para me acusar. “Você está é furando.” Paro a conversa no celular e pergunto com base em que ele diz isso. O idiota diz que está na fila desde uma hora antes. Respondo que vim da parte de baixo do estádio, vi o fim e entrei. Uma menina afirma que ela só acabava está bem mais para trás. Fui notar mais tarde que a entrada dos carros no estacionamento interrompia o fluxo e quem estava vindo de baixo acreditava que o fim estava perto dessa mesma entrada. Mas ela seguia por mais um quilômetro acima. Outras pessoas viveram o mesmo.

Um tanto confuso, mas vendo sentido no que disse a menina, saí da fila. Ainda tentei me explicar pras moças e pro gordo babaca, que, sem querer ouvir o que poderia ter acontecido e sem responder com educação, me disse com desprezo um “vaza”. Pela primeira vez na minha vida, dei um tapa de leve no peito de outro cara e desafiei. “Não precisa ser mal educado, não estou aqui para prejudicar ninguém e não vou estragar o show nem de um mané como você.” Pra quem é honesto, nada ofende mais do que ser acusado de algo que não fez. E ele me acusou de querer tirar vantagem de pessoas que esperaram horas ali.

Chamei o rapaz de otário e ele devolveu a mesma ofensa. As amigas o tiraram dali.

Sei que o gordo babaca não lerá este texto. Mas, assumindo minha porção ressentida e nada positiva em alguns casos, torço pra que ele, se fizer algo parecido, leve o soco que eu não dei.

Apesar de o contato ter sido rápido e intolerante, estou certo de que ele merece apanhar. Mas só depois de ser ouvido. Porque até para a intolerância é preciso uma certa etiqueta.

Cuca, o complexo de Kajuru e o falso monopólio do coração

Os idiotas confundem sem nenhum filtro a capacidade de dizer o que pensam com a de falar a verdade. Nada cabe fora daquilo que expressam, porque a coragem de afirmar parece irresistível a qualquer tentativa de diálogo. “Eu acho assim” e pronto: acusam e vilipendiam, para depois apelarem à tolerância do público. Sua autenticidade, que certamente também lhes traz prejuízos, transforma esses alucinados em pessoas induvidáveis. É como se apenas kamikazes modernos fossem capazes de sentir.

Pois é esse o papel que desempenha, há anos, o atual técnico do Cruzeiro – um dos bobos da corte preferidos do Brasil. Em seu agudo complexo de Jorge Kajuru, apresentador de TV que exerce a liberdade de expressão como se fosse liberdade de agressão, Cuca se dá o direito de expiar os próprios fracassos levantando suspeitas sobre o mundo. Mundo que, na sua cabeça, o persegue por sua pureza, sua incapacidade de lidar com toda a sujeira terrena, ao contrário dos vendidos se rendem para obter os louros das vitórias.

Um grande sinal de egoísmo.

Dias após o jogo que afastou o clube mineiro do título nacional, analistas e curiosos se dividem sobre o lance que pode ter decidido o destino do Cruzeiro. Apenas isso já bastaria para demonstrar que, afinal, Cuca errou ao insinuar os maiores roubos, colocar em dúvida todo o campeonato e macular uma disputa que inclui outros clubes, atletas, profissionais e torcedores. Questionar a arbitragem lhe pareceu pouco: pôs em dúvida a honra de alguém que poderia ter simplesmente errado. Como repreender sua emoção e não aderir? Como não ver um clamoroso erro onde poderia haver dúvida, uma vez que Cuca até chorou?

Não creio que seja demagogia nem que o técnico tenha calculado suas reações intempestivas. Mas em seu complexo de Kajuru, Cuca preferiu descarregar sua frustração em ofensas injustificáveis. Se no seu vestiário havia jogadores aos prantos após a derrota, havia também outros – não poucos -, que, apesar de entenderem sua tristeza, julgaram acertada a marcação do pênalti contra o Cruzeiro. Quantos desses poderão estar ao lado do treinador no futuro? Quantos duvidarão da sua capacidade de lidar com erros?

No fundo, nada disso importa para o técnico do Cruzeiro. A ele, só interessam os próprios sentimentos, tão autênticos e tortos. Ao se manifestar de maneira tão primitiva, Cuca joga no lixo a divisão que se instalou após o lance. Quando se apresenta como personagem emotivo em uma grande batalha por poder e dinheiro, incentiva a ideia de que apenas os que são derrotados se comovem contra as maldades por aí – e que nada têm a ver com ele.

Mas a verdade é que Cuca não tem o monopólio do coração. Nem ele nem ninguém.

Os piores enxadristas da história brasileira

Neopetista, neobeata e neoliberal light, a neodescoberta Dilma Rousseff é a presidente eleita do Brasil porque errou por penúltimo na campanha presidencial mais lamentável da curta história democrática brasileira. Inescrupuloso, desrespeitoso e egoista, o derrotado José Serra conseguiu, além do fracasso, manchar o que havia sobrado de progressista em sua trajetória. No meio do caminho, sobrou quem tem tinha meias ideias, como a frágil Marina Silva, tão cheia de contradições quanto de fraquezas físicas e ideológicas. E também sobrou quem tinha meia dose de razão e meia de ridículo, como o decano ultrapassado, mal educado e politicamente finado Plínio de Arruda Sampaio. Juntando todos, não temos muito.

Tirar significados das eleições 2010 é obra para quem tem muita imaginação. Jornalistas, políticos e analistas já estamos todos acostumados com viagens desse tipo. Na fantasia dos obreiros do pensamento político nacioná, a campanha de Dilma dosou isto com aquilo, associou-se ao mitomaníaco Lula e blá blá blá. Os mesmos visionários dizem que Serra perdeu porque cometeu erros, porque não soube comunicar ao povão como ele é fenomenal e incrível demais. Eles também dizem que Marina, com seus surpreendentes 19 milhões de votos, convenceu uma parte do país que o importante é ter voz irritante e tirar o Brasil da rusga entre a fala empolada dos tucanos e a lingua plesa dos petistas.

Conversa.

A todos eles falta dimensão política. Suas votações são fruto de uma disputa eleitoral atípica, na qual, se pudesse, o povo votaria para reprovar a todos em vez de ficar com o pragmatismo quase automático. Em igualdade de condições, todos os presidenciáveis teriam dificuldade de se elegerem vereadores. Não têm capacidade de liderança. Não despertam interesse popular. Não conduziram um debate razoável sobre nada. Resultado: nunca antes na história desde país os brasileiros se viram tão pouco tentados a votar, a defender candidato e a celebrar vitória ou chorar derrota. Foi tudo protocolar e esse é um fato.

O clima de animosidade, incentivado principalmente por ações da campanha de Serra na internet, colou só para os grupelhos radicaloides de petistas e tucanos que supõem que ninguém trabalha de verdade. Na cabeça dessa gente, o Brasil quer ouvi-los e esperar fantásticas diretrizes e visões sobre o futuro da pátria amada. Felizmente a grande maioria das pessoas normais não se importa com os empolgados de plantão, muitos deles petro-interessados, metro-apaniguados, naturo-adictos ou bolchevicos-ultrapassados.

E é melhor que seja assim.

Culpa dos brasileiros que têm mais o que fazer? Absolutamente não. Para a grande maioria do povo que não liga para Brasília nem para conchavos e picuinhas eleitorais, a campanha de 2010 foi como ver de camarote um horroroso jogo de xadrez, disputado por amadores. Se a prática política já não atrai tanta gente quando os grão-mestres movimentam as peças, o que dizer de agora, quando os enxadristas têm a classe, a habilidade e a sobriedade de um gandula de pelada? Vamos ter saudades até do Itamar Franco.

Com os piores candidatos da história das eleições brasileiras, 2010 merecia o esquecimento. Mas ditará tendência: serão quatro anos de administradores tarados dizendo como é importante ter conhecimento técnico e toda a ladainha previsível, irritante e acaciana. Não será exclusividade da futura ocupante do Palácio do Planalto. O mesmo haverá nos principais governos estaduais de todo o país, como São Paulo e Minas Gerais.

Seria razoável vivermos esse afã gerencial se não estivéssemos em um país em transformação. Mas estamos. E não é de gestores alucinados que o Brasil precisa para se tornar um país mais justo para todos. É de gente que saiba mexer com as engrenagens da sociedade, que ajude a ampliar a agenda do país, e não viva para mergulhar num estúpido debate de valores americanoide, com objetivo único de vitória eleitoral.

Será uma longa espera até 2014. Quem errará por penúltimo na próxima?

Quero meu Estado laico de volta

Por trabalhar diretamente com políticos nestas eleições, tenho preferido deixar minhas opiniões para o Twitter e não em um formato no qual essas impressões possam se cristalizar e me impedirem, com o passar do tempo, de adaptar as ideias aos novos fatos sem grande urgência. Mas há questões que estão ligadas a valores inegociáveis para mim e é disto, sem nenhum sectarismo, que eu trato neste texto.

O Brasil evoluiu muito desde a derrubada de Fernando Collor da Presidência. Enquanto a Argentina corre risco de eleger o ex-presidente do Boca Juniors para mandar no país, nós temos a possibilidade de escolher um entre dois bons candidatos para conduzir o Palácio do Planalto. Com a exceção de um ou outro radical de plantão, ninguém acha que Dilma Rousseff colocará fogo no país ou que José Serra destruirá o crescimento recente.

Embora não haja grandes diferenças entre os dois e entre seus aliados, é natural que a sociedade tenha opiniões apaixonadas sobre ambos e que defenda uma candidatura ou a outra. Diferenças ideológicas – mais entre os eleitores do que entre os eleitos, é verdade – são necessárias para a construção de uma democracia sólida. Mas o que a disputa de um segundo turno indicou até agora não foi nada além de retrocesso.

Sempre entendi que o limite do debate político é a verdade. Se você quer dizer que seu adversário é solteiro e não tem filhos, pode dizer. Afinal, homens e mulheres públicos são forjados na pancada e na amargura, e não à base de leite de pêra com Ovomaltine. Só não reclame depois se a sociedade se escandalizar com a forma que foi posto o debate “homossexuais podem ser eleitos?” E arque com as conseqüências, porque esse é o tipo de discussão que daria orgulho a conservadores como Paulo Maluf, não a progressistas.

Assim como Maluf, muitos políticos – incluindo vários padres e pastores – devem ter se sentido felizes com a regressão proposta por Dilma e Serra neste segundo turno das eleições presidenciais. Ambos com raízes progressistas, os dois aceitaram manchas indeléveis em suas biografias em uma artificial e ridícula discussão sobre aborto. É do jogo político, é legitimo. Mas em vez de choque com essa medieval proposta de debate, houve de lado a lado uma escalada religiosa que, essa sim, coloca nossa democracia em risco.

Incapaz de virar a corrida presidencial com suas próprias forças, Serra traiu sua história e sua passagem de vanguarda pelo Ministério da Saúde para se render às práticas que dariam orgulho aos adversários que combatia nos anos 60. Tudo para atrair meia dúzia de votos de uma candidata que recebeu apoio das classes médias urbanas e de sua antítese, católicos e evangélicos fãs da interferência da religião nas políticas de Estado. Nenhum projeto pessoal justifica tamanha rendição. Vencer a qualquer custo parece melhor ao tucano.

O mesmo se pode dizer sobre Dilma. Mesmo precisando de mais três míseros milhões de votos para vencer – haverá pelo menos 20 milhões em disputa no segundo turno – a petista capitulou vergonhosamente ao aceitar a proposta de debate conservador, promovida por setores interessados da sociedade e impulsionada pela agenda da candidatura de Serra. Uma mulher que provavelmente será eleita presidente não tem o direito de pedir confiança ao mesmo tempo em que, má atriz que é, simula interesse por religião, Deus e tudo isso.

Seria fazer tabula rasa dizer que a votação de Marina Silva, forçando o segundo turno, acabou por estimular o que há de mais conservador e retrógrado em uma campanha na qual não havia nenhum candidato verdadeiramente de direita. Mas não deixa de ser verdade que a discussão sobre valores religiosos tomou de assalto uma campanha tediosa, na qual faltaram propostas e sobrou blá-blá-blá. E Marina capitalizou sobre isso.

Os vários setores da sociedade devem se manifestar como quiserem, mas os presidenciáveis não podem simplesmente cair no populismo religioso e deixarem de guardar os portões da nossa sociedade moderna como se estivéssemos à beira da falência moral, e não de uma simples votação. Se esses valores virarem referência sobre quem merece a Presidência e quem não merece, em breve poderemos não ter freio contra figuras ultrapassadas da política brasileira, como os Carlos Apolinários e Garotinhos da vida.

Se não houver parcimônia e esta eleição virar referência, alguém duvida de uma eventual candidatura que possa ter como inquilino do Palácio do Planalto um pastor evangélico sectário e ou um católico fanático? Muitos deles se manifestaram nos últimos dias, como é direito deles. Mas nossa jovem democracia pode aceitar que a importância das religiões se confunda com a vida pública? Não acredito nisso. E admito a frustração por ter achado que nunca viveria em um Afeganistão do cristianismo, risco que parece iminente pelo tom dos nossos candidatos à Presidência.

Por isso, peço o meu Estado laico de volta. Ele não era grande coisa, eu sei. Mas gostava dele mesmo tortinho, coitado. Será que dá para providenciar antes do segundo turno?

Sobre os blogueiros ditos progressistas

O líder fascista britânico, Nick Griffin, gosta de dizer que Winston Churchill se filiaria a seu partido se estivesse vivo. A justificativa: na juventude, o premiê criticava a pesada imigração e era algo xenófobo. Para barrar os fascistas, os partidos compromissados com a democracia no Reino Unido se uniram para acusar o “sequestro” da imagem de Churchill. Ali, traçaram uma linha entre o que é aceitável na política local e o que não é. Atacados por todos os outros, os nazistóides se acanharam e nas últimas eleições encolheram. Isso só aconteceu porque não deram a eles o direito de se apropriar de um personagem que é bem comum dos britânicos, e não compartilha valores com o fascismo. Me lembrei dessa história ao ler o manifesto produzido após o 1º encontro de blogueiros supostamente progressistas.

Entre esses blogueiros, há jornalistas respeitáveis e especialistas lúcidos em política. Não cabe a mim enumerá-los, porque eles sabem quem são. Mas há também gente cujo progressismo varia conforme o ocupante do Palácio do Planalto. Que recebe dinheiro público para produzir peças supostamente jornalísticas a soldo de Brasília e do governo petista. E que sequestra a blogosfera para abusar do direito de ofender, caluniar, mentir e fazer campanha, como se estivesse fazendo jornalismo ou defendendo ideias. Os valores do jornalismo, aos quais apelam os Amorins da vida, não se entrelaçam com o que defendem. Ainda assim, tentam falar em nome da internet, como se donos dela fossem. E como se a internet toda usasse seus pensamentos de piloto de trem fantasma para acusar golpismo na imprensa, na oposição e em qualquer tentativa de espírito crítico.

Assim como Griffin sequestra Churchill para se dar uma relevância que não tem, grande parte dos blogueiro$ progre$$i$tas sequestra a internet para falsear a imagem de porta-vozes de uma massa amorfa e difusa, que nunca lhes deu autoridade para falar em nome dela. Ainda menos poderiam, em nome dessa blogosfera tão intangível, fazer descarada e acrítica campanha eleitoral, como acontece principalmente no espaço de ex-jornalistas promovidos a intelectuais-internéticos – incluindo aí um neoadmirador do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o único que já foi processado por ele. Tem o que hoje é pago pela Empresa Brasileira de Comunicação para fazer um programa que dá traço de audiência. Tem o outro que recebeu dinheiro da TV Brasil para trabalhar em uma atração que o Brasil desconhece. Não são acusações soltas, tudo isso foi amplamente noticiado nos últimos meses.

Pior: essas figuras são colocadas no mesmo balaio de blogueiros honestos, que escrevem por militância sincera e acabam dividindo espaço com essas estrelas decadentes e oportunistas. Isso tem de acabar porque o interesse desses caras é empunhar bandeiras que nunca foram suas, unicamente por terem sido escanteados nos veículos que hoje chamam de golpistas. É gente que quer enriquecer às custas da Viúva e ter financiamento público.

É natural que haja pessoas engajadas numa causa ou na outra. E que o engajamento produza conteúdo na blogosfera, de boa e de má qualidade. O que não é natural é a insistência da suposta blogosfera progressista de atribuir a si o monopólio do espírito crítico na internet brasileira. E de se dizer dona da exclusividade do contraponto às mídias impressa e televisada. Fazem isso como se as más intenções fossem intrínsecas ao outro lado e eles, desinteressadamente, é claro, representassem um Brasil novo. Isso se chama desonestidade intelectual. E é o esporte preferido de muitos “progressistas”.

Se ninguém se manifestar contra esse grupo, ele tentará, como fizeram os fascistas britânicos, assumir de vez o monopólio da opinião crítica política na internet. Quem, de qualquer forma, contestar isso, poderá ser vítima da retaliação mau caráter dessa gente. Vivi isso em grau moderado, mas outros tantos colegas já se viram enredados em péssimas situações por conta do autoritarismo da parte ruim da dita blogosfera progressista. Em um espaço tão democrático quanto a internet, permitir a eles a chance de acelerar suas manipulações baratas é perigoso e equivocado. Até porque, parafraseando Bezerra da Silva, progressista que é progressista não fala que é progressista.

E isso muitos desses blogueiros não são, nunca foram e nunca serão.

Dunga, o sequestrador da Seleção

Na política, nossa herança patrimonialista indica que há séculos confundimos o público com o privado. São passagens aéreas bancadas com dinheiro da Viúva que se tornam facilitadores de férias. Gráficas do Congresso que se tornam editoras pessoais. E assim por diante. A mesma comparação vale para o técnico da Seleção Brasileira, que transformou um símbolo nacional em um ativo supostamente seu na Copa do Mundo da África do Sul.

Com a anuência do presidente da CBF, Dunga distorceu critérios, beirou a defesa das ditaduras, esnobou os jornalistas e mostrou como sua noção de hierarquia se aproxima da dos tiranetes nível Hugo Chávez que estão soltos por aí. Sua pretensa inflexibilidade moral esconde um ex-jogador rancoroso e incapaz de entender não apenas o papel da Seleção Brasileira, mas também o de quem paira ao redor dela.

Em sua fábrica de invenção de supostos critérios, definiu que os jogadores comprometidos com ele estão comprometidos com a Seleção. Um atleta contundido que não atendesse a uma convocação poderia estar perfeitamente excluído. Teria sido o caso de Kaká, se ele não fosse acima da média. Mas pesou para a ausência de Vagner Love, que se lesionou depois de uma Copa América em que foi titular e nunca mais voltou.

Também decidiu Dunga que só levaria ao Mundial jogadores que testou com a camisa amarela. Mas o último amistoso da Seleção antes da Copa foi no longínquo dia 2 de março, contra a Irlanda. Dali, pinçou o atacante Grafite para o grupo final por conta de uma atuação de meia hora. Se tivesse jogado em abril ou maio uma vez mais, por que Paulo Henrique Ganso, Neymar ou Ronaldinho Gaúcho não poderiam estar na lista?

Não houve mais amistosos porque o sequestrador da Seleção não queria estimular mais contestações. Queria provar sua tese, e não fazer um grupo qualificado de verdade. Não interessam os títulos que ele ajudou a conquistar desde seu início no cargo: nenhum deles é novidade na sala de troféus da CBF. Serviram apenas para impedir que Dunga e Jorginho fossem demitidos, uma vez que pouca gente confiava em suas chances de se manterem.

Mantiveram-se às custas de um projeto de uma Copa do Mundo que pouco terá a ver com a parca experiência de Dunga como treinador. Ao enxergar lobby contra ele em qualquer crítica que lhe é feita, o treinador age como um Robert Mugabe, ditador do Zimbábue, ou um Ricardo Teixeira, autocrata da CBF. Faz sentido. São todos homens tarados por COMPROMETIMENTO. Com eles próprios, é claro.

Só conservador briga por espaço na mídia

Ao notar o confronto entre petistas x tucanos na internet, nas seções de cartas dos jornais, nos comentários dos sites ou onde for, imagino como seria bom se houvesse um grupo com a articulação popular do PT e o diálogo com a intelectualidade do PSDB. Se isso existisse, talvez a política brasileira deixasse de ser mesquinha e limitada àquilo que parece noticiável. Mas não é isso que querem os antagonistas: seu conservadorismo na construção da democracia representativa dá a eles o impulso único de alimentar o ranço contra o outro como se não houvesse amanhã. Coisa de gente muito reacionária, recalcada e atrasada.

Para uns, a mídia é golpista. Para outros, é leniente. Para ambos os lados, o mensalão são os outros. Não que não haja espaço para criticar a mídia, até porque no Brasil ela tem propagado cada vez mais erros que são injustificáveis, possivelmente de má-fé. Mas quando a política se submete ao noticiário para se definir diante da sociedade, é sinal de que algo vai muito mal. E nisso a culpa não é do reportariado, dos grandes grupos nem do respeitável público: é do establishment político, o mesmo que pauta a mídia que critica.

É muito importante que haja informação circulando e que o direito ao contraditório seja exercido onde for: jornais, blogs, twitter, rádio. Mas a política é o instrumento com o qual se muda o mundo, antes de mudar a mídia. Querem que creiamos que é o contrário.

Nada justifica tantos textos figadais em defesa deste ou daquele partido se quem os escreve muitas vezes mal saiu da própria casa e limita sua visão ao que oferece a tela do computador. Por que não empregar o ânimo usado para fiscalizar o noticiário em ações solidárias e em formação política de verdade, sem ranço? Parece algo distante.

Mais fácil é fiscalizar quem é pago para fiscalizar o poder. Fiscalizam a mídia como fazem as ditaduras. Os esquerdistas e liberais que querem vínculo com o povo pouco se importam com o que é ou o que deixa de ser noticiado. Estão mais preocupados com ações efetivas, não midiáticas. Se o Brasil amadureceu ao se afastar do conservadorismo econômico e social que o travava no século 18 até o início da década de 90, o mesmo não se pode dizer sobre o posicionamento dos seus agentes em relação à democracia representativa.

São caquéticos, mesmo os jovens.

Essa falta de liberalidade na discussão política, bem como a criação de antagonismos que não resistem à primeira lufada de ar, é condizente com um comportamento reacionário e recalcado, segundo o qual há bem e mal, patriotas e vendidos, dignos e escória. Cabe à mídia, na ideia desses, justificar o que pensam um sobre o outro e sobre a própria mídia. É um raciocínio que dá sono, mas que se reforça conforme se aproximam as eleições.

Não quero aqui cair no voluntarismo e dizer que todo mundo poderia fazer algo mais efetivo para que a política não se limite ao que sai e como sai na mídia. Não acho que em vez de escrever todos deveriam estar removendo gente das favelas afetadas pelas chuvas no Rio de Janeiro. Mas que ficar enchendo o saco do pessoal da mídia é uma posição careta e afastada daquilo que melhora a vida das pessoas, ah, isso é sim.

Os meios podem ser mais modernos. Mas a falta de visão dos que querem desconstruir a mídia sem construir algo concreto para a sociedade é coisa do século passado.

Dicas para evitar o Fla x Flu eleitoral

Foi dada a largada para as eleições de 2010. O clima começou a se acirrar e já é possível notar os obstáculos que vão enfiar no caminho de quem quer entender as coisas direito. Os candidatos nem são o problema central por enquanto. O diabo são os assessores, aliados, eleitores, apaniguados e simpatizantes que se esforçam para que o povo prefira votar em Cumbica para presidente (essa já é minha tentação).

Longe de mim querer dar manual para quem quer que seja. Mas algumas dicas, com base no que deu para notar até esta que é minha quarta cobertura eleitoral, podem ser úteis.

1 – Quando uma declaração repercute apenas dias depois de ser dada, desconfie.
Na eleição 2010, a estreia foi com a declaração da candidata Dilma Rousseff sobre “não fugir da luta”. Ela fez o comentário no sábado. Nem eu nem os colegas que ouvimos o discurso percebemos nada diferente na hora. Na segunda-feira o negócio virou uma referência ao exílio de Serra durante a ditadura. Dilma pode não ser palanqueira, mas não faria um comentário que, se tivesse sido feito com essa intenção, ofenderia o coordenador de sua própria a campanha, Marco Aurélio Garcia, que revisa os textos. Toda eleição é cheia disso.

Quatro dias depois, a Folha publicou uma errata bem escondidinha dizendo o seguinte: “Em parte dos exemplares, foi publicado erroneamente que a pré-candidata do PT à Presidência disse, em evento em São Bernanrdo no último sábado: “Eu não fugi da luta e não deixei o Brasil”. A declaração correta, publicada na maior parte dos exemplares, é: “Eu nunca fugi da luta ou me submeti. E, sobretudo, nunca abandonei o barco”.

2 – Quando um partido fala mais da imprensa do que das propostas, desconfie.
Quem está perdendo reclama da mídia. Quem está ganhando reclama da mídia. A mídia é importante, mas não é ela que governa. Candidato que se preocupa mais com a imagem do que com a substância merece tomar ainda mais porrada da imprensa. O presidente Lula cabe nessa: seu governo é bem avaliado, mas seu diálogo ruim com a mídia não é culpa exclusiva de preconceito alheio. Por mais que ele se incomode com isso, nunca será uma unanimidade. O mesmo vale para o PT, que acha ok o mensalão tucano, acha ok o mensalão do DEM, mas considera o próprio mensalão uma invenção da mídia golpista. Já os tucanos acham que a imprensa comparou o rico mensalão petista com um mensalão seu menos rico para um candidato que nem sequer ganhou as eleições. Tou fora.

3 – Desconfie.

4 – Quando um lado chama o outro de antipatriota ou coisa do tipo, desconfie.
“Eles querem entregar o país” ou “Eles querem dominar o país para implantar o stalinismo” é argumento de quinta categoria. E o tempo inteiro ele aparece na internet, nas mesas de bar, na mídia, no diabo que carregue. A maioria dos caras que se xinga durante a campanha é amigo há décadas. Serra e Dilma, por exemplo, se conhecem há uns 30 anos. E têm amizade um pelo outro. Discurso eleitoral pesado pode servir para mexer com votos instáveis. E para embarcar na campanha gente mais disposta a espumar de raiva do que a discutir. Melhor é seguir o conselho de Jaiminho, o carteiro do Chaves, e evitar a fadiga.

5 – Desconfie.

6 – Não confie em apenas uma fonte para se informar.
O contraditório é mais do que obrigatório em discussão eleitoral. Quem só fala de um lado pode saber muito sobre aquele lado. Mas não ajuda a entender o quadro todo com a complexidade que ele merece. Nesses nossos tempos, como mostram várias pesquisas, as pessoas tendem a preferir argumentos fáceis para acelerar sua tomada de posição. Isso pode ser bom para alguns candidatos, mas para quem é cidadão comum, só atrapalha.

7 – A verdade merece ser prezada.
O terreno daquilo que é ético discutir em uma campanha é pantanoso. Figuras públicas estão na arena para debaterem e serem debatidas. Mas o respeito à verdade é fundamental. Assim como não havia verdade no dossiê da pasta rosa, que apontava uma suposta conta de tucanos – incluindo Serra – no exterior, também era ridiculamente falsa a suposta ficha criminal de Dilma publicada na imprensa. Quem revigora na campanha mentiras desse tipo, merece desprezo. E quem lembra o que é verdadeiro, ajuda na discussão.

8 – Eleições são sobre o futuro
Os tucanos têm razão nisso: o passado ajuda a indicar caminhos, mas não resolve. Uma disputa eleitoral trata do que será feito, não do que já foi. Quem fica preso demais ao que já foi não consegue fazer mais. Se alguém chega dizendo que o terror comunista vai voltar ou que vão alugar sua avó para o capital financeiro especulativo internacional, tenha sono.

9 – Desconfie.

10 – Desconfie muito.

Serra zomba da imprensa ao anunciar candidatura para Datena

O apresentador José Luiz Datena cansou de figurar entre os reis da baixaria na televisão. Suas companhias são Jorge Kajuru, Marcelo Resende e Carlos Ratinho – tão adeptos da porcaria na televisão quanto ele próprio. Assim como os colegas, gosta de se dizer independente, chamar adversários para a briga e lamentavelmente ocupar horários vespertinos na TV, diante de milhares de crianças que ajuda a deseducar. A tudo isso se associou o governador de São Paulo, José Serra, ao admitir a essa triste figura: será candidato à Presidência da República pelo PSDB.

Depois o tucano negou o inegável, disse que quem o lançou candidato foi o apresentador. Balela. Passou semanas evitando admitir a óbvia campanha a jornalistas que se esforçam para levá-lo a sério. Com exclusividade, entregou o anúncio a um fanfarrão que passou 25 minutos fazendo-lhe elogios, entregando abraços e desejando boa sorte. Em troca, Serra ainda conseguiu louvar a (im)postura de Datena e o classificou como jornalista “independente”. Uma zombaria inaceitável para quem quer se eleger presidente.

Serra se esforça para dizer que não mistura governo com eleição. Mas ao usar Datena para passar seu recado, confundiu porcaria com notícia. Vá lá que ele goste de posar para o apresentador como xerife da segurança pública de São Paulo. É até legítimo. O que não parece razoável é enfiar-se na disputa pelo mais alto cargo do país – depois de meses de hesitação – falando a um bufão. É um mau sinal para quem deseja tomar a sério as suas palavras como candidato. E espero que os jornalões brasileiros, que passaram tempos defendendo o rapaz, compreendam a mensagem.

O homem a quem entregou o furo jornalístico é tão pequerrucho que consegue reclamar pelo fato de eu, no texto que escrevi para o site onde trabalho, não ter incluído seu nome logo no início da reportagem. Citei a TV onde a entrevista foi veiculada, que tem mais prestígio e credibilidade do que esse senhor. Disse ele que não lhe atribuir os louros pela inacreditável vitória da baixaria é atitude de repórter magoado, de quem tem rancor no coração.

Pode até ser que ele esteja certo. Eu realmente tenho um problema com gente que não honra o ofício que diz ter escolhido. Esse é o caso de Datena. Será o de Serra também?

Página 1 de 1712345...10...Última »